Dificilmente o Crime Desorganizado... Alessandro Teodoro

Dificilmente o Crime Desorganizado (leia-se, estado) subsistiria se os membros do Crime Organizado não se digladiassem.
A provocação parece muito dura, mas nos convida a uma reflexão sobre uma dinâmica recorrente da política e da sociedade: estruturas de poder frequentemente se fortalecem quando aqueles que poderiam questioná-las estão ocupados lutando entre si.
Enquanto facções disputam territórios, influência e recursos, o Estado amplia seu poder de intervenção, justifica novas medidas de controle, aumenta seu aparato repressivo e reafirma seu papel como mediador indispensável do conflito.
A violência passa a ser o argumento para mais vigilância; o medo, a justificativa para menos questionamento.
Isso não significa romantizar ou legitimar o crime organizado.
Pelo contrário.
Significa reconhecer que conflitos permanentes entre grupos criminosos costumam produzir um ambiente no qual a população é a principal vítima, e no qual o Estado, mesmo quando falha em garantir direitos básicos, encontra razões para expandir sua autoridade sem necessariamente resolver as causas profundas da violência.
Há uma ironia nisso: os que disputam poder pelas armas acabam, muitas vezes, reforçando a narrativa e a necessidade de um poder central crescente.
No fim, ambos se retroalimentam da instabilidade, enquanto o cidadão comum paga a conta em forma de insegurança, perda de liberdade, serviços precários e oportunidades desperdiçadas.
Talvez a questão mais incômoda não seja quem vence essa disputa, mas por que a sociedade continua aceitando um ciclo no qual o conflito se torna um instrumento de manutenção do poder, e não um problema a ser efetivamente solucionado.
Afinal, quando a guerra se torna permanente, sempre há alguém lucrando com ela — e raramente é quem apenas deseja viver em paz.
