PORTAS INVISÍVEIS Nem todos que cruzam... Mary Soares

PORTAS INVISÍVEIS


Nem todos que cruzam nosso caminho encontram a porta aberta.
Há acessos que concedemos sem perceber, movidos por uma sensação difícil de explicar. Não se trata apenas de simpatia ou afinidade. É algo mais silencioso, quase intuitivo. Uma energia que nos alcança antes mesmo que a razão consiga traduzir.


Existem pessoas que chegam e, naturalmente, encontram espaço. Suas presenças não invadem; apenas se acomodam. Com elas, o diálogo flui, os silêncios não constrangem e a convivência parece familiar, como se a alma reconhecesse algo que a mente ainda desconhece.


Outras, por mais corretas e gentis que sejam, permanecem do lado de fora. Não por rejeição, arrogância ou falta de generosidade, mas porque nem toda presença encontra ressonância dentro de nós.


Aprendemos, ao longo da vida, que abrir as portas do coração exige discernimento. Nem todo encontro precisa tornar-se permanência, e nem toda proximidade precisa transformar-se em intimidade.


A energia que sentimos diante das pessoas nem sempre é explicável, mas frequentemente é reveladora. Ela nos aproxima, nos afasta, nos protege e, por vezes, nos ensina.


Talvez a maturidade consista justamente em respeitar essa percepção interior: abrir quando a alma encontra paz, limitar quando ela encontra inquietação, e compreender que selecionar quem entra em nossa vida não é egoísmo — é cuidado.
Porque as portas mais importantes não são as da casa, mas as que guardam aquilo que somos.


Mary Soares