Carta aberta à minha irmã Hoje eu vi... alaize_borges
Carta aberta à minha irmã
Hoje eu vi em algum lugar que era o Dia do Luto. Fiquei pensando nessa palavra por alguns minutos. Ela é pesada. Não sei se entendo o significado, talvez nem faça sentido tentar entender agora. Também não fui procurar. A verdade é que eu queria te dizer algo que você nunca vai poder ouvir. Então, vou escrever.
Quase ninguém sabe, ninguém do meu meio atual, mas até os meus 15 anos você foi minha heroína, minha fortaleza e minha confidente. Mesmo nas brigas diárias de irmãs, você sempre estava lá.
Às vezes sinto como se você estivesse lá no dia em que nasci. Acho que estava, porque você vivia dizendo que eu era um bichinho feio de tão pequena. Mas você estava lá.
Eu lembro das nossas brincadeiras na praia, de correr no quintal da vovó, de aprender a subir nas árvores com você e de fugir da mamãe quando aprontávamos. Lembro até de pular da ponte só porque você pulava. Naquela época eu sabia, só não entendia o quanto você era parte de mim.
Lembro do meu primeiro beijo e de quando te contei que meus dentes bateram nos da outra pessoa. Você riu tanto. Lembro das viagens de barco com o papai. Lembro do amor que existia entre nós e de como a gente se entendia só pelo olhar.
Te perder uma vez já foi dolorido demais. Depois dos meus 15 anos, aquela criança ficou para trás. Foi colocada em uma caixinha.
E, há alguns dias, eu liguei para a mamãe feliz, porque finalmente poderíamos nos encontrar. Eu imaginei esse encontro. A criança que estava guardada pulava de felicidade. Criei imagens de nós duas conversando, contando as besteiras da infância. Imaginei conhecendo as meninas e dizendo que eu seria a tia mais legal do mundo. Lembro de pensar: “Vou ter ela de volta.”
Mas não foi assim.
Nosso encontro foi diferente. E, dessa vez, você foi arrancada de mim mais uma vez, e para sempre. E eu não pude fazer nada. Não pude lutar, nem quebrar uma cadeira na cabeça de alguém. Pelo menos da primeira vez eu fiz isso. Eu te defendi. Briguei com todo mundo por você.
Mas, em algum momento, eu desisti. E por isso te peço perdão.
Irmã, você me deixou, mas eu ainda não aprendi a te deixar. Ainda crio lembranças que nunca aconteceram, porque é mais fácil assim. Porque, por alguns instantes, isso faz você parecer presente.
Quero que você saiba que o teu legado não vai morrer. Não enquanto eu existir.
Você sempre será a minha melhor lembrança.
E as minhas melhores histórias sempre terão você.
Com amor,
Da sua irmã, que ainda não aprendeu a viver sem você.
