O caderno de receitas de antigamente Na... Miriam Da Costa
O caderno de receitas de antigamente
Na cozinha de antigamente,
existia uma gaveta
( ou melhor, um relicário )
onde preciosas receitas
eram guardadas cuidadosamente.
Ali repousavam cadernos de capas gastas,
amarelados pelo tempo
e perfumados por lembranças.
Suas páginas carregavam mais do que ingredientes; guardavam histórias,
afetos, segredos de família
e um modo de amar
que se expressava através das receitas.
Havia anotações apressadas nas margens,
manchas de açúcar, gotas de óleo,
marcas de dedos enfarinhados
e letras que denunciavam diferentes gerações.
Cada rabisco
era uma presença.
Cada receita,
um reencontro.
Aquele bolo de fubá da avó,
o pudim das festas de domingo,
os biscoitos preparados nas tardes chuvosas,
o doce servido em celebrações e despedidas.
Tudo estava ali,
costurado entre linhas e letras
e medidas nem sempre exatas.
Porque as cozinheiras de antigamente
sabiam receitas que não cabiam no papel,
mas viviam na memória.
Escreviam
"uma pitada",
"o suficiente",
"até dar o ponto",
como quem dizia que a experiência,
a intuição e o afeto
também eram ingredientes indispensáveis.
Hoje,
em tempos de receitas digitais,
vídeos instantâneos e telas iluminadas,
ainda há algo de sagrado
naqueles velhos cadernos
com páginas amareladas pelo tempo
e besuntadas pela experiência.
Ao abri-los, não encontramos
apenas instruções culinárias,
encontramos vozes,
ouvimos risos que já se calaram,
sentimos abraços que o tempo levou,
e vemos, entre uma página e outra,
a delicada herança daquelas
que nos alimentaram o corpo,
a memória e a alma.
Pois o verdadeiro ingrediente secreto
nunca esteve escrito.
Era o amor
que passava de geração em geração,
temperando a vida
muito antes de temperar a comida.
✍ @MiriamDaCosta
