A passos largos para a Demonização da... Alessandro Teodoro

A passos largos para a Demonização da Dúvida, caminham os que confundem Confusos com Multifacetados.
Há uma diferença muito profunda entre aquele que não sabe o que pensa e aquele que pensa tanto que se recusa a caber numa única maneira de compreender o mundo.
O primeiro pode estar perdido entre ideias que não consegue organizar; o segundo talvez apenas tenha descoberto que a realidade é complexa demais para ser reduzida às certezas de uma única perspectiva.
Vivemos tempos em que a Dúvida passou a ser tratada como fraqueza, a contradição como incoerência e a revisão de pensamento como sinal de ausência de convicção.
Parece que, para conquistar alguma credibilidade, tornou-se necessário apresentar respostas definitivas, opiniões inabaláveis e posicionamentos cuidadosamente alinhados.
Como se pensar fosse escolher um lado e nele permanecer, mesmo quando os fatos, a experiência e a própria consciência apontam para outras direções.
Mas há uma espécie de pobreza intelectual — para não dizer miséria — escondida na necessidade permanente de ter razão.
É quando a convicção deixa de ser resultado da reflexão e se transforma em mecanismo de defesa do ego.
O indivíduo já não procura compreender; procura confirmar.
Já não escuta para aprender; escuta para encontrar brechas por onde possa atacar.
E, nesse exercício de certezas, vai perdendo justamente aquilo que deveria distinguir o pensamento humano: a capacidade de reconsiderar.
Ser multifacetado não é ser confuso.
É reconhecer que uma mesma questão pode comportar diferentes leituras, que sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir e que mudar de perspectiva não significa mudar necessariamente de caráter.
É compreender que a inteligência não está apenas na capacidade de formular respostas, mas também na coragem de conviver com perguntas que ainda não encontraram repouso.
A dúvida, quando amadurecida, não paralisa o pensamento: aprofunda-o.
É ela que impede que a opinião se transforme em dogma, que a ideologia se disfarce de verdade absoluta e que a convicção se converta em intolerância.
Duvidar não é, necessariamente, desconhecer o caminho; às vezes, é simplesmente recusar-se a caminhar de olhos fechados.
Talvez o maior sintoma de empobrecimento intelectual de uma época não seja a quantidade de pessoas que não sabem, mas a quantidade de pessoas que desaprenderam a admitir que não sabem.
Afinal, quem se considera dono de todas as respostas dificilmente encontrará motivos para continuar pensando.
E, no fim das contas, entre a confusão de quem não consegue organizar as próprias ideias e a complexidade de quem se permite enxergar o mundo por diferentes ângulos, existe uma distância imensa.
Pensar não é estar permanentemente certo.
É ter liberdade suficiente para não precisar estar certo o tempo inteiro.
