Capítulo - A mulher que a vida não... Ana Carolina Paulo

Capítulo - A mulher que a vida não conseguiu endurecer.



Se a minha vida fosse um livro, certamente não seria daqueles de histórias bonitas, com finais previsíveis e caminhos cuidadosamente desenhados. Seria um livro de páginas amassadas, algumas molhadas pelas lágrimas, outras rabiscadas pela raiva, muitas marcadas pela saudade e tantas outras preenchidas por sonhos que, mesmo depois de tantas tempestades, nunca deixaram de existir.


Eu já vivi coisas que jamais imaginei que precisaria suportar.


Conheci a traição dentro de casamentos, descobri que nem sempre o amor é suficiente para manter alguém ao nosso lado e aprendi, da maneira mais dolorosa, que algumas promessas são feitas apenas para serem quebradas. Experimentei a dor indescritível de perder filhos, uma ferida que não encontra palavras, porque existem dores que não cabem em nenhuma língua. Enfrentei momentos tão escuros que cheguei a tentar desistir da própria vida. Perdi amigos próximos, pessoas que acreditava que caminhariam comigo por muito mais tempo. E, a cada despedida, precisei aprender novamente a respirar sem determinadas presenças.


A vida não economizou nas lições. E, convenhamos, algumas delas foram cruéis demais.


Houve dias em que a felicidade parecia morar muito longe de mim. Dias em que o dinheiro não dava, o cansaço sobrava e a preocupação com o amanhã ocupava todos os espaços da minha cabeça. Lembro-me de períodos em que arroz com cebola era praticamente o cardápio de um mês inteiro. Não porque fosse uma escolha gastronômica, mas porque era o que havia. Era o que eu conseguia colocar à mesa para garantir que meus filhos tivessem alguma coisa para comer.


E eu comia. Engolia junto a comida as preocupações, os medos, as lágrimas e a responsabilidade de ser mãe. Porque, quando se tem filhos, muitas vezes a gente descobre uma força que nem sabia possuir. A gente aprende a diminuir a própria fome para aumentar a possibilidade de saciar a fome de quem ama.


Também conheci a dor de uma filha que, diante das dificuldades, optou por morar com o pai. E não existe manual que ensine uma mãe a administrar sentimentos tão contraditórios. Existe o amor, a saudade, a culpa, a compreensão e aquela vontade imensa de poder resolver tudo, mesmo quando não está ao nosso alcance.


Houve ainda os abusos sexuais, as invasões da minha intimidade, o medo transformado em realidade quando um bandido armado entrou na minha casa e a invadiu para se esconder. Sim, dentro do lugar onde eu deveria encontrar proteção, precisei experimentar o terror. Porque, às vezes, o mundo invade até os nossos espaços mais sagrados e nos obriga a descobrir como continuar depois.


Mas a vida também me deu Lumiar.


Ah, Lumiar! Entre tantas páginas difíceis, existem lembranças que merecem ser guardadas com carinho. As viagens, os caminhos, a natureza, os momentos em que pude simplesmente existir sem precisar resolver os problemas do mundo. Porque também fui feita de risadas, cervejas degustadas sem pressa, músicas que atravessaram a alma, filmes que me fizeram viajar sem sair do lugar e conversas que fizeram o tempo parecer generoso.


Não sou feita apenas das minhas dores. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que descobri sobre mim.


Depois de tudo, eu poderia ter me tornado uma mulher amarga. Poderia ter fechado as portas do coração, desconfiado de todos, transformado minhas experiências em muros e passado o restante da vida tentando me proteger de qualquer possibilidade de sofrimento.


Mas não.


Eu escolhi, repetidas vezes, manter o coração leve.


Escolhi continuar enxergando o melhor nas pessoas, mesmo depois de conhecer o pior que algumas delas são capazes de oferecer. Escolhi não permitir que a maldade alheia determinasse a mulher que eu seria. Escolhi continuar acreditando na beleza dos encontros, na sinceridade dos afetos e na possibilidade de dias melhores.


Não confundam isso com ingenuidade. Eu conheço a dor, reconheço os perigos e sei muito bem que nem todo mundo merece acesso à nossa vida. Apenas me recuso a deixar que as experiências ruins me transformem em alguém que não combina comigo.


Ainda sou uma mulher que sonha. E sonho alto!


Tenho duas graduações, duas pós-graduações e uma inquietação que não me permite estacionar. Estudei, trabalhei, construí caminhos e continuo desejando aprender. Não quero apenas sobreviver ao que a vida me apresenta. Quero construir uma história da qual eu mesma tenha orgulho.


Penso em montar meu próprio negócio, criar uma fonte de renda extra, fazer meu dinheiro trabalhar a meu favor e conquistar uma independência financeira que me permita respirar sem aquela velha sensação de que qualquer imprevisto pode desmoronar tudo.


Quero adquirir meu imóvel. Quero comprar meu veículo. Quero viajar, conhecer lugares, experimentar sabores, colecionar paisagens e ter dinheiro suficiente para não precisar viver fazendo contas antes de cada desejo.


Quero conforto. Quero tranquilidade. Quero segurança.


Quero abrir a geladeira sem preocupação, planejar uma viagem sem culpa, comprar alguma coisa sem precisar calcular quantos dias de sacrifício aquilo vai custar. Quero olhar para o futuro sem sentir aquele aperto no peito que tantas vezes me acompanhou.


E não, isso não é ambição desmedida. É o desejo legítimo de quem já conheceu a escassez e agora quer experimentar a abundância. De quem já precisou escolher entre as próprias necessidades e as necessidades dos filhos e hoje deseja ter condições de oferecer mais, viver mais e desfrutar mais.


Enquanto construo meus projetos materiais, também sigo cuidando da minha espiritualidade. Minha caminhada com o sagrado ganhou raízes profundas. Hoje, assumo responsabilidades, fortaleço minha fé e sigo me tornando uma liderança religiosa. Entendi que a espiritualidade não é apenas sobre pedir proteção nos dias difíceis, mas também sobre compromisso, disciplina, entrega e responsabilidade com aquilo em que acreditamos.


Carrego comigo a força de tudo que vivi, mas não quero que minhas cicatrizes sejam o meu sobrenome. Quero que sejam apenas marcas de uma trajetória que ainda tem muito para acontecer.


E, no meio de tantos planos, conquistas, desejos e possibilidades, existe uma ausência que nenhuma realização consegue preencher.


Minha mãe.


É curioso perceber que podemos conquistar tantas coisas, estudar, trabalhar, construir patrimônio, viajar, alcançar reconhecimento, amadurecer e até colocar o mundo aos nossos pés. Podemos chegar a lugares que um dia pareciam impossíveis, realizar sonhos antigos e descobrir novas versões de nós mesmas.


Mas existe uma saudade que não negocia com as conquistas.


Posso ter uma casa linda, um carro na garagem, dinheiro na conta, uma agenda cheia de viagens e uma vida inteira de realizações. Posso conquistar o mundo, mas haverá sempre um lugar dentro de mim onde a minha mãe fará falta.


Porque existem ausências que não diminuem com o tempo. Apenas aprendemos a conviver com elas. E existem momentos em que tudo o que gostaríamos era poder contar uma novidade, ouvir uma opinião, receber um abraço ou simplesmente sentar perto de quem já não está.


Talvez seja essa a maior contradição da vida: passar tanto tempo lutando para conquistar o mundo e descobrir que algumas das coisas mais preciosas que tivemos não podiam ser compradas, recuperadas ou substituídas.


E é por isso que continuo.


Continuo porque ainda tenho sonhos. Porque meus filhos fazem parte da razão pela qual sigo construindo meus dias. Porque ainda quero conhecer lugares, escrever palavras, viver histórias, amar, rir alto, beber uma cerveja olhando a paisagem, ouvir minhas músicas preferidas e assistir a filmes que me façam pensar sobre a vida.


Continuo porque ainda existem versões minhas que não conheci. Existem lugares onde nunca estive, projetos que ainda não saíram do papel, abraços que ainda vou receber e alegrias que sequer imagino.


E, principalmente, continuo porque não quero que a minha história seja lembrada apenas pelas coisas que me aconteceram, mas por tudo aquilo que fui capaz de fazer apesar delas.


Se alguém me perguntar quem sou, não direi que sou apenas uma mulher que sofreu. Direi que sou uma mulher que viveu. Que caiu, levantou, perdeu, chorou, recomeçou, estudou, trabalhou, criou filhos, enfrentou medos, alimentou sonhos e, mesmo quando a vida parecia fazer de tudo para apagar sua luz, encontrou algum motivo para continuar brilhando.


Sou feita de primavera, mas conheço muito bem os invernos.


Sou feita de poesia, embora algumas estrofes tenham sido escritas com lágrimas.


Sou feita de fé, mesmo quando precisei conversar com o silêncio.


Sou feita de coragem, ainda que muitas vezes tenha sentido medo.


E sou feita de saudade, especialmente daquela que nenhuma conquista será capaz de curar.


A vida ainda me deve algumas alegrias, mas eu também tenho muitos sonhos para cobrar dela.


E, se existe algo que aprendi, é que não importa quantas vezes a vida tenha tentado me convencer de que era hora de parar: ainda há muito de mim querendo acontecer.


Porque eu não atravessei tantas tempestades para terminar minha história debaixo da chuva.


Ainda quero florescer. Ainda quero conquistar. Ainda quero viver. E, desta vez, quero viver também tudo aquilo que passei tantos anos apenas tentando sobreviver.


Fim deste capítulo. Não da história.