FRAGMENTO DE UM AMOR DE AREIA Tenho um... MikaeleTavares11
FRAGMENTO DE UM AMOR DE AREIA
Tenho um desejo antigo, que me acompanha desde a infância: o sonho de ser amada. Amada de forma incondicional, com a leveza de quem sabe que está sendo cuidada. Às vezes me pergunto se essa busca por cuidado e proteção é uma essência que pulsa em toda mulher, ou se em mim é apenas uma carência incurável. Será que há algo de errado na minha estrutura?
O paradoxo é doloroso: essa necessidade absoluta de afeto foi o que me manteve viva e esperançosa por tanto tempo, e é esse mesmo sentimento que, agora, me consome aos poucos. Na verdade, a sensação de vitalidade se esvaiu; eu me perdi, e minha essência evaporou. Aprendi, da maneira mais árdua, que não existe traição maior do que nos anularmos por causa de uma paixão, esquecendo que o amor-próprio deveria ser a nossa maior fortaleza.
Por insistir em um amor feito de castelo de areia, construído à beira-mar na maré alta, eu me desphysiquei. Hoje, me desencontro fragmentada neste oceano em que mergulhei. Sinto-me incapaz de me refazer, perdida na imensidão mais profunda e escura das minhas próprias águas, onde o oxigênio parece resumido a poucas bolhas prestes a estourar. Estou exausta. A cada respiração, sinto o ar faltar, e a dor dessa sufocação é devastadora. No fundo, a gente não anseia pelo último suspiro; o que a alma quer é apenas que a dor finalmente cesse e vá embora.
Sinto-me desamparada, sem um teto emocional onde pousar. Olhando para trás, percebo que sempre me senti uma inquilina indesejada nos espaços que ocupei, então eu já deveria estar acostumada com esses meus desfechos. O sonho de encontrar um abraço para chamar de lar chegou ao fim. Acho que passei a vida dormindo e fantasiando acordada; agora despertei e me vi sem chão, sem vida. Como dói velar o próprio corpo enquanto o peito ainda insiste em respirar.
Dizem que os artistas são dramáticos e transbordam sentimentalismo. Eu não nasci com dons artísticos, mas herdei a mesma intensidade para sofrer — só que o meu drama acontece no palco da vida real. Como eu gostaria que tudo isso fosse teatro, para poder descer do palco e deixar o figurino da dor no camarim. Queria ser apenas plateia e assistir a mim mesma de longe. Contudo, minha existência virou um espetáculo onde sou a protagonista menos afortunada, aquela cujo final feliz nunca alcançou as cortinas. Eu quis ser a mocinha da minha história, mas roubaram-me o papel e me vestiram de vilã. Prenderam-me em um labirinto repleto de armadilhas, onde minha alma se perdeu e meu corpo permanece estático, de olhos abertos, assistindo à vida passar como um espectador anestesiado.
No espelho, vejo a pessoa mais corajosa e, ao mesmo tempo, mais ingênua que conheço. Corajosa por ter mantido os olhos brilhando e acreditado no amor; e ingênua por não ter recolhido meus pedaços e ido embora logo no primeiro sinal de ausência e desencontro.
