⁠Quando conseguimos mudar em nós, o... Alessandro Teodoro

⁠Quando conseguimos mudar em nós, o que queríamos mudar no outro — percebemos que fizemos a única mudança que nos cabia. Há uma profunda sabedoria espiritual no... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Quando conseguimos mudar em nós, o que queríamos mudar no outro — percebemos que fizemos a única mudança que nos cabia.


Há uma profunda sabedoria espiritual no instante em que deixamos de exigir do mundo aquilo que ainda não fomos capazes de cultivar dentro de nós.


Talvez uma das maiores ilusões humanas seja acreditar que a transformação começa quando o outro reconhece seus erros, abandona suas imperfeições ou passa a enxergar a vida pela perspectiva que consideramos correta.


Entretanto, enquanto esperamos que o outro se transforme para que nossas relações melhorem, corremos o risco de desperdiçar a oportunidade de nos tornarmos melhores.


A verdade é que somos frequentemente mais atentos às imperfeições alheias do que às nossas próprias contradições.


Identificamos facilmente a arrogância no outro, mas nem sempre percebemos nossa prepotência; cobramos compreensão, mas oferecemos julgamento; exigimos paciência, mas nos irritamos quando a realidade não obedece às nossas expectativas.


Queremos ensinar humildade sem antes silenciar nosso orgulho e reivindicamos tolerância sem aprender a conviver com aquilo que nos contraria.


Talvez seja por isso que a verdadeira evolução não comece quando adquirimos o poder de corrigir alguém, mas quando desenvolvemos a consciência necessária para corrigir a nós mesmos.


Na perspectiva teológica, existe uma profunda coerência nessa compreensão.


Jesus, ao ensinar sobre o cisco no olho do próximo e a trave no próprio olho, não estava apenas propondo uma reflexão sobre julgamento, mas revelando uma inversão de prioridades que ainda compromete a espiritualidade humana: a facilidade de enxergar o erro alheio e a resistência em reconhecer o próprio. (Mateus 7:3-5).


Não se trata de fechar os olhos para os erros do mundo, tampouco de transformar a tolerância em cumplicidade com aquilo que é injusto.


Trata-se de compreender que não podemos exigir do outro uma consciência que ainda não conseguimos demonstrar em nossas próprias atitudes.


A fé, quando verdadeiramente amadurece, deixa de ser um instrumento para fiscalizar a conduta alheia e passa a ser um compromisso com a transformação interior.


Afinal, não é suficiente conhecer os ensinamentos de Cristo; é preciso permitir que eles modifiquem nossa maneira de pensar, sentir, reagir, perdoar e existir.


Tiago nos oferece uma advertência igualmente significativa: não basta ouvir a Palavra, é necessário praticá-la. (Tiago 1:22).


E talvez aqui resida uma das mais difíceis lições da existência: mudar a nós mesmos exige uma coragem muito maior do que apontar o que precisa mudar nos outros.


Porque, quando apontamos, frequentemente nos colocamos na posição confortável de observadores; quando nos transformamos, precisamos abandonar nossas justificativas, confrontar nossas incoerências e reconhecer que também somos parte daquilo que desejamos ver diferente no mundo.


Isso não significa assumir a responsabilidade pelas escolhas dos outros, mas reconhecer a responsabilidade intransferível pelas nossas.


Não podemos obrigar alguém a amadurecer, ensinar quem não deseja aprender, despertar quem escolheu permanecer adormecido ou oferecer consciência a quem faz da própria resistência uma identidade.


Podemos, entretanto, escolher não reproduzir aquilo que condenamos, não devolver ofensa com ofensa, não alimentar o orgulho com a arrogância e não permitir que a falta de sensibilidade de alguém nos transforme em pessoas insensíveis.


Afinal, não há grandeza em combater a escuridão tornando-nos semelhantes a ela.


Talvez a mais bonita manifestação da espiritualidade seja justamente essa: compreender que a transformação pessoal não é uma tentativa de nos tornarmos superiores aos outros, mas uma decisão de não permanecermos inferiores àquilo que nossa própria consciência já nos revelou.


Quando mudamos em nós aquilo que tanto desejávamos mudar no outro, deixamos de fazer da transformação alheia uma condição para a nossa própria evolução.


E descobrimos que a mudança mais importante não dependia da disposição de ninguém além de nós mesmos.


Porque Deus não nos concedeu a existência como uma missão de administrar consciências alheias, mas como uma oportunidade de desenvolver a nossa.


No fim, talvez a maior evidência de que compreendemos verdadeiramente uma lição não esteja na quantidade de pessoas que conseguimos convencer, corrigir ou transformar, mas naquilo que deixamos de ser depois de compreendê-la.


E quando a nossa mudança interior se torna testemunho, em vez de discurso, percebemos que não precisamos transformar o outro para que nossa existência faça sentido.


Afinal, há mudanças que podemos desejar no mundo, mudanças que podemos inspirar nos outros e mudanças que podemos até ajudar a construir coletivamente.


Mas existe uma que jamais poderemos terceirizar: aquela que começa dentro de nós.


E essa, diante de Deus, da consciência e da própria vida, sempre foi a única mudança que verdadeiramente nos coube.