GAÚCHO DE ENCICLOPÉDIA Bem, sou... andresaut
GAÚCHO DE ENCICLOPÉDIA
Bem, sou gaúcho, sim.
Mas daqueles da cidade.
Meu cavalo, durante muitos anos, foi um Fusca. Não galopava grande coisa, mas também não precisava dar pasto. De vez em quando pedia gasolina, óleo e uma empurradinha. Coisa que muito cavalo também pediria, se entendesse de mecânica.
Bombacha?
Tenho.
Só que a minha tem zíper, cinco bolsos e o pessoal insiste em chamar de calça jeans.
Não fui criado apartando gado, levantando poeira em estrada de chão nem tomando mate antes de aprender a caminhar. Minha relação com vaca, na infância, era bastante urbana. Como dizia aquela velha brincadeira, eu sabia perfeitamente o que era uma vaca: um negócio quadradinho que ficava na geladeira. Tirava a tampa, virava e saía leite.
Pronto.
Especialista em pecuária.
Também não sei laçar. Se me entregarem um laço e uma vaca, é bem provável que a vaca fique tranquila e eu acabe amarrado numa árvore.
Mas chega setembro…
Ah, setembro é uma covardia com o coração da gente.
Basta ouvir os primeiros acordes de uma música gaúcha e alguma coisa muda de lugar aqui dentro. Aparece um campo que talvez eu nunca tenha atravessado a cavalo. Um galpão onde talvez eu nunca tenha dormido. Um fogo de chão que conheço mais da poesia do que da lida.
E não importa.
Porque pertencimento também pode morar na imaginação.
Quando vejo a bandeira do Rio Grande tremulando, meu peito cresce uns dois centímetros. Quando toca o Hino Rio-Grandense, cresce mais uns três. Se continuar tocando, daqui a pouco estou precisando mandar alargar a camisa.
E olha que torço por futebol.
Mas há uma diferença.
Time a gente escolhe.
O Rio Grande parece que escolhe a gente.
Está no jeito de falar, no “bah” que resolve uma conversa inteira, no “capaz” que pode significar umas quinze coisas diferentes, no exagero discreto de quem afirma que aqui faz o maior frio do mundo enquanto toma cerveja gelada.
Está no chimarrão que circula, na mesa que sempre dá lugar para mais um, na saudade que o gaúcho sente até daquilo que ainda não terminou.
Por isso não vou fingir que sou homem de estância.
Não sou.
Sou gaúcho de asfalto.
Gaúcho de Fusca.
Gaúcho de bombacha jeans.
Gaúcho que conheceu a vaca pela caixinha de leite e o cavalo muito mais pelos livros do que pela sela.
Talvez seja, como gosto de dizer, um gaúcho de enciclopédia.
Mas experimente tocar uma gaita.
Mostre um campo verde se perdendo no horizonte.
Levante a bandeira.
Cante o hino.
E depois venha me dizer que sou menos gaúcho.
Porque há coisas que a gente aprende.
Outras, a gente herda.
E algumas simplesmente aparecem dentro do peito sem pedir licença.
O meu Rio Grande é assim.
Talvez eu não saiba encilhar um cavalo.
Mas sei perfeitamente onde ele galopa.
Aqui dentro.
