Se eu acredito em fadas? Ah, acredito!... andresaut

Se eu acredito em fadas?

Ah, acredito! Acredito em fadas, bruxas, feiticeiras e outras criaturas encantadas que fui conhecendo nesta minha vida de curioso. Algumas tinham poderes extraordinários. Outras, nem tanto. Mas todas sabiam fazer coisas que até hoje a ciência não conseguiu explicar direito.

Conheci várias. E posso garantir que os livros de histórias não contam nem a metade do que elas são capazes de fazer.

Lembro de uma vez em que fiquei muito rouco, gripado, com a garganta parecendo uma estrada de chão em agosto. Apareceu uma feiticeira com um chá de guaco. Tinha um cheiro esquisito, uma cor suspeita e, segundo ela, curava qualquer coisa. Tomei. Não sei se foi o guaco, o mel ou o carinho com que ela segurava a xícara, mas melhorei. E, para dizer a verdade, gostei tanto daquele chá que até hoje desconfio que o ingrediente mais importante não estava na receita.

Outra vez, uma bruxa bem gordinha, dessas que parecem ter sido feitas especialmente para abraçar, percebeu uma tristeza que eu nem sabia explicar. Não perguntou nada. Apenas me puxou para perto, ajeitou meus cabelos e deu um beijo na minha testa. Pronto. A angústia desapareceu. Sem consulta, sem receita, sem precisar marcar retorno. Uma medicina que a ciência deveria estudar com mais carinho.

Mas havia uma fada especialmente poderosa.

Essa não tinha asas, pelo menos nunca vi. Tinha um sorriso capaz de iluminar a casa inteira e uma cara braba que fazia até o relógio andar mais depressa. Sua varinha mágica era um chinelo. E que varinha! Bastava levantá-lo e, misteriosamente, eu descobria uma vontade enorme de ir para a aula, tomar banho, guardar os brinquedos e até comer verduras. Tudo aquilo que, segundos antes, eu jurava não querer fazer.

Era uma criatura de poderes impressionantes. Encontrava objetos que eu havia procurado durante horas, sabia quando eu estava mentindo antes mesmo de terminar a mentira e conseguia adivinhar que eu estava com fome só de olhar para minha cara.

E tinha mais. Quando eu caía, ela soprava o machucado. Quando eu tinha medo, segurava minha mão. Quando o mundo parecia grande demais, ela me abraçava e, de repente, o mundo ficava do tamanho certo.

Nunca entendi como conseguia.

O curioso é que nenhuma dessas criaturas usava chapéu pontudo, voava de vassoura ou precisava pronunciar palavras em latim. Suas magias eram muito mais simples. Moravam nas mãos, nos olhos, nos abraços e naquela mania de cuidar da gente, mesmo quando a gente insistia que não precisava.

Com o tempo fui crescendo e descobrindo que o mundo tem muito mais magia do que imaginamos. Só que os adultos, ocupados demais tentando explicar tudo, acabam desaprendendo a enxergar.

Eu não.

Continuo acreditando em fadas, bruxas e feiticeiras. Algumas já partiram para outros reinos, mas deixaram seus encantamentos espalhados pela minha vida. Basta sentir o cheiro de um chá, lembrar de um beijo na testa ou ouvir, na memória, o barulho de um chinelo arrastando pelo corredor para que todas voltem por alguns instantes.

E se alguém ainda duvida da existência dessas criaturas, posso revelar um segredo que levei muitos anos para descobrir.

Elas existem, sim. E têm outros nomes.

A gente chama de mãe, vó, nona, avó…

Algumas, quando a vida é especialmente generosa, também atendem pelo nome de amor.

E pensar que passei a infância procurando fadas nos livros, bruxas nas florestas e feiticeiras nos contos.

Quando, na verdade, elas estavam todas na cozinha.

Uma fazendo chá, outra preparando o almoço e uma terceira procurando o chinelo.

E todas, absolutamente todas, fazendo a mesma magia.

Cuidando de mim.

Hoje, quando alguém pergunta se acredito em fadas, respondo que sim.

Só tenho uma dúvida que me acompanha desde menino.

Se minha mãe era uma fada, por que a varinha mágica dela era um chinelo?

andre saut