VOVÓ NÃO TEM CELULAR. TEM TEMPO. Vovó... andresaut

VOVÓ NÃO TEM CELULAR. TEM TEMPO.

Vovó não tem celular. Tem tempo.

E tempo, hoje em dia, é uma dessas riquezas que ninguém sabe mais onde comprar.

Vovó não precisa de internet para responder às nossas perguntas. Ela tem uma memória cheia de histórias, algumas tão antigas que nem os livros contam direito. E, quando contam, ela desconfia.

“Não foi bem assim, não!”

E lá vem outra versão, muito mais bonita, com detalhes que só quem viveu sabe acrescentar.

Vovó faz tricô. E enquanto as agulhas conversam entre si, ela vai desfiando lembranças, costurando conselhos e remendando, sem perceber, algumas tristezas da gente.

Vovó não compra comida pelo celular. Ela vai para a cozinha, abre as panelas e faz acontecer um daqueles milagres que não aparecem nos livros de receitas.

Tem bolo que cresce só de sentir o carinho dela. Tem sopa que cura até saudade. Tem pão que perfuma a casa inteira e um temperinho secreto que ninguém consegue descobrir.

E não adianta pedir a receita.

“Ah, meu filho, é um pouquinho disso, uma pitadinha daquilo, mexe até ficar bom.”

Quanto é um pouquinho? Quanto tempo precisa mexer?

Ela não sabe explicar.

Fez tantas vezes que as mãos aprenderam sozinhas. Já não precisa medir, pesar ou consultar nada. Cozinha de memória, tempera de lembrança e serve com o coração.

Vovó também não precisa de aplicativos para saber se vai chover. Olha para o céu, sente o vento e anuncia que é melhor recolher a roupa. E, curiosamente, quase sempre acerta.

Não tem milhares de amigos nas redes sociais, mas conhece pelo nome quem mora na rua, sabe quem anda precisando de um abraço e nunca esquece de perguntar se a gente está comendo direito.

Vovó não manda figurinhas de coração.

Ela abraça.

Não envia mensagens de bom-dia.

Ela abre a janela, passa um café e deseja que o dia seja bonito.

Não precisa de fotografias para guardar os momentos. Guarda tudo num lugar onde nenhuma tecnologia conseguiu chegar: naquele cantinho da alma em que as coisas importantes nunca envelhecem.

Às vezes, penso que inventamos tanta coisa para economizar tempo que acabamos esquecendo o que fazer com ele.

Vovó não.

Ela sabe que uma conversa não precisa ter pressa, que um silêncio também pode ser companhia e que uma tarde inteira pode caber numa xícara de café.

Talvez seja por isso que a casa da vovó tenha um relógio diferente.

Os ponteiros andam, mas a infância fica.

E quando a gente cresce, descobre uma coisa que deveria ter aprendido muito antes.

Vovó não estava atrasada no mundo moderno.

Era o mundo moderno que andava depressa demais para perceber a sabedoria dela.

Porque, enquanto todo mundo procura um jeito de viver mais, vovó descobriu, faz tempo, um jeito muito mais bonito de viver.

Ela não conta os minutos. Faz os minutos contarem.

E talvez o maior segredo daquela cozinha nem estivesse nas panelas.

Estava no tempo que ela dedicava a nós.

Porque comida a gente encontra em qualquer lugar.

Mas amor feito em casa, com receita de vó, depois que acaba, não há aplicativo no mundo que consiga entregar.

André Saut