Minha mãe, uma mulher simples, uma... RivaAlmeida

Minha mãe, uma mulher simples, uma riqueza imensa...


Os ensinamentos que o tempo não apagou


Minha mãe dizia:


"Guardem na memória e no coração esses almoços de família."


Naquela época, talvez não déssemos a essas palavras toda a importância que tinham. Quase todos os domingos nos reuníamos ao redor da mesa, principalmente quando recebíamos a visita dos meus irmãos mais velhos, que moravam em São Paulo. Era algo tão natural, tão comum, que parecia que aqueles encontros fariam parte da nossa vida para sempre.


Hoje, aqueles almoços já não acontecem como antes. Ficaram as lembranças, as histórias, os rostos e a saudade. E só agora compreendo a profundidade daquele conselho: ela sabia, talvez por experiência própria, que os momentos mais simples da vida podem se transformar nas nossas maiores riquezas.


Às minhas irmãs, ela costumava dizer:


"Guarde o que comer e não o que fazer."


Ou seja, não deixassem para amanhã aquilo que poderia ser feito hoje. A comida poderia ser guardada para o dia seguinte, mas as louças sujas não deveriam ficar acumuladas na pia até amanhã.


Era uma maneira bem-humorada e inteligente de ensinar organização, responsabilidade e zelo pelo lar.


Uma expressão simples, bem ao jeito dela. Mas vejo hoje que carregava também uma lição sobre generosidade, desapego e a importância de valorizar aquilo que recebemos, em vez de viver acumulando ou cobrando.


Também me lembro de uma noite da minha infância. Eu tinha muito medo de dormir no escuro. Minha mãe, percebendo meu medo, sentou-se ao meu lado e me ensinou uma oração que, segundo ela, havia aprendido com sua madrinha:


"Nesta cama eu me deito e nela eu me levanto. Peço à Virgem Maria que me cubra com o seu manto e, com ele, estarei coberto. Não terei medo nem pavor, das coisas deste mundo e das que de outros forem."


Aquela oração me trouxe segurança. Talvez ela não imaginasse que, muitos anos depois, eu ainda guardaria tão viva na memória aquela cena: minha mãe ao meu lado, ensinando-me uma oração para que eu pudesse fechar os olhos sem medo.


Hoje percebo que, enquanto me ensinava a rezar, ela também me ensinava a encontrar conforto na fé, a enfrentar meus medos e a sentir que nunca estava sozinho.


São essas pequenas coisas que fazem uma vida permanecer dentro de outra.