Há 19 anos eu já tinha fé, mas... Alessandro Teodoro

Há 19 anos eu já tinha fé, mas descobri — às duras penas — que ainda não era fiel o suficiente para não lamentar a “volta para casa do Pai” do meu pai.
E talvez tenha sido justamente naquele momento que comecei a compreender a diferença entre acreditar em Deus e aprender a confiar nos desígnios de d'Ele.
Até então, minha fé habitava, de alguma maneira, o território das convicções.
Eu acreditava na eternidade, professava a esperança da ressurreição e reconhecia, racionalmente, que a morte não deveria representar o fim de tudo aquilo que o amor construiu.
Entretanto, quando a finitude bateu à minha porta com o rosto de meu pai, descobri que uma coisa é professar a fé diante dos mistérios da existência; outra, inteiramente diferente, é sustentá-la quando a vida nos impõe uma despedida que o coração não estava preparado para compreender.
Naquele dia, aprendi que a fé não nos torna imunes à dor, tampouco nos transforma em criaturas desprovidas de lágrimas.
Afinal, até Jesus chorou diante da morte de Lázaro (João 11:35).
E há algo profundamente humano e divinamente revelador nesse pequeno versículo: mesmo conhecendo o poder da vida, Cristo não desprezou a linguagem do sofrimento.
Talvez porque chorar não seja necessariamente duvidar de Deus.
Talvez seja apenas a maneira mais sincera que encontramos de demonstrar o quanto alguém foi indispensável à nossa existência.
Demorei a compreender que lamentar a partida de meu pai não significava desconfiar da promessa divina.
Significava, antes, reconhecer a dimensão do amor que sua presença havia plantado em mim.
Porque a saudade é, muitas vezes, o preço que a eternidade cobra de quem experimentou a bênção de amar alguém profundamente em toda a linha do tempo.
A teologia nos ensina a olhar para a morte sob a perspectiva da eternidade; a filosofia nos provoca a reconhecer nossa vulnerabilidade diante do inevitável; e a poesia, generosa em sua capacidade de traduzir aquilo que a razão não alcança, nos permite perceber que algumas ausências continuam habitando os lugares mais profundos da presença.
Hoje, talvez eu compreenda melhor aquilo que, há 19 anos, minha humanidade ainda não conseguia conciliar com minha espiritualidade: ter fé não significa deixar de desejar que aqueles que amamos permaneçam conosco.
Significa, apesar desse desejo tão legítimo, encontrar forças para continuar acreditando que o amor não se encerra na sepultura.
Como escreveu o apóstolo Paulo, há três virtudes que permanecem: a fé, a esperança e o amor, sendo o amor a maior delas (1 Coríntios 13:13).
E talvez seja exatamente aí que resida o maior ensinamento dessa travessia: a fé pode nos ajudar a aceitar aquilo que não podemos mudar, mas é o amor que nos impede de esquecer aquilo que jamais deveria ser perdido dentro de nós.
Não sei se, naquela ocasião, me faltou fé ou se simplesmente me sobrou humanidade.
Hoje, prefiro acreditar que Deus nunca exigiu de mim a insensibilidade como prova de fidelidade.
Afinal, o próprio Cristo, diante do sofrimento, conheceu a angústia e a oração (Mateus 26:38-39).
Por isso, depois de 19 anos, já não me cobro por ter chorado.
Agradeço por ter tido um pai cuja partida pudesse deixar tamanha saudade.
Agradeço pela história, pelos ensinamentos, pelos afetos e até pelas lembranças que, vez ou outra, insistem em transformar a ausência em presença.
Se naquele dia perdi a convivência física com meu pai, não perdi o significado de tê-lo tido em minha vida.
E, se ainda há saudade, que ela não seja interpretada como insuficiência da minha fé, mas como testemunho da grandeza do meu amor.
Porque, no fim das contas, talvez a maturidade espiritual não consista em aprender a não chorar quando alguém amado parte para a eternidade, mas em descobrir que podemos chorar, sentir saudade, questionar nossos limites e, ainda assim, continuar confiando em Deus.
Há 19 anos, eu já tinha fé.
Hoje, talvez tenha aprendido um pouco mais sobre ela: não é preciso silenciar o coração para acreditar na eternidade.
É possível sentir profundamente a dor da despedida e, mesmo com os olhos marejados, continuar dizendo: seja feita a Tua vontade.
Amém!
