⁠Talvez não haja Fábrica de Costura... Alessandro Teodoro

⁠Talvez não haja Fábrica de Costura mais nobre do que aquelas onde se costuram palavras. Afinal, há tecidos que vestem o corpo, mas existem palavras que vestem ... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Talvez
não haja Fábrica de Costura mais nobre do que aquelas onde se costuram palavras.


Afinal, há tecidos que vestem o corpo, mas existem palavras que vestem até a alma.


Há linhas que unem pedaços de pano, enquanto outras, invisíveis aos olhos, conseguem aproximar distâncias, remendar afetos, bordar lembranças e, por vezes, costurar aquilo que o tempo já tentou rasgar.


Escrever é, de certa maneira, exercer o ofício de quem trabalha com tecidos delicados: exige mãos pacientes, olhar atento e sensibilidade para perceber que nem toda palavra serve para qualquer ocasião.


Algumas precisam de seda para acariciar, outras de linho para resistir.


E há aquelas que precisam ser costuradas com a firmeza da verdade e outras com a delicadeza do silêncio.


O curioso é que, nessa fábrica, não se trabalha apenas com aquilo que se sabe, mas sobretudo com aquilo que se sente.


As matérias-primas são as experiências, os retalhos são as memórias, as agulhas são as ideias e os fios, quase sempre invisíveis ou ignorados, são as emoções que atravessam a existência humana.


E talvez seja por isso que algumas palavras nos vestem tão bem, enquanto outras nos deixam completamente despidos diante de nós mesmos.


Existem frases que funcionam como mantos em noites frias, pensamentos que nos servem de abrigo e poemas que parecem conhecer nossas medidas antes mesmo de nos encontrarem.


Mas há também uma responsabilidade nessa arte: palavras podem costurar até feridas, mas também podem abrir rasgos; podem aproximar corações, mas igualmente fabricar abismos.


A língua é uma ferramenta extraordinária nas mãos de quem compreende que nem tudo o que pode ser dito merece ser pronunciado, assim como nem tudo o que precisa ser dito deve permanecer guardado.


No fundo, talvez a grandeza de quem escreve não esteja na quantidade de palavras que consegue reproduzir, mas na capacidade de escolher aquelas que conseguem permanecer depois que a leitura termina.


Porque o tempo desfaz tecidos, a moda substitui estampas e até as vestimentas mais caras perdem o encanto.


Entretanto, há palavras que atravessam gerações sem perder a costura, porque foram alinhavadas com verdade, bordadas com sensibilidade e arrematadas com humanidade.


E, se a vida é esse imenso tecido de encontros, despedidas, alegrias e desencontros, escrever talvez seja uma das maneiras mais bonitas de impedir que tudo se transforme em fragmentos.


Afinal, há quem costure roupas para cobrir o corpo, há quem costure histórias para aquecer a memória e há quem, sem perceber, costure palavras tão profundamente que acaba vestindo a alma de quem jamais conheceu.


Eis a nobreza dessa fábrica: nela, não se mede o valor da produção pelo número de peças confeccionadas, mas pela quantidade de vidas que uma palavra consegue tocar sem sequer precisar de mãos para abraçar.