Um dia, precisei contar ao mar aquilo... Lene Dantas

Um dia, precisei contar ao mar aquilo que ele ainda não sabia.

Sentei diante dele e observei as ondas que iam e vinham, como se carregassem perguntas que eu havia evitado por anos. Era uma sensação nova, intensa.

Eu me senti livre.

Livre porque passei tempo demais reprimindo os meus sonhos. Tempo demais escutando ecos que não tinham nenhuma conexão com a minha natureza.

E eu sempre soube, em algum lugar de mim, qual era a minha natureza: livre e feliz, forte e impetuosa, mas também afetuosa, sensível e empática.

Talvez o meu maior erro tenha sido o medo de contrariar.

Por muito tempo, esse medo me privou de ser quem eu era. Fez com que eu procurasse aprovação onde deveria haver apenas escolha. Fez com que eu confundisse amor com permissão.

Hoje, ainda procuro dentro de mim essa brecha onde eu possa existir inteira, sem pedir licença. Um lugar onde ninguém tenha poder sobre os meus sentimentos, os meus sonhos ou as minhas decisões.

Talvez liberdade seja exatamente isso: perceber que não precisamos da autorização de ninguém para sermos quem somos.

E hoje eu voltei ao mar porque precisava lhe contar uma coisa.

Depois de tanto tempo procurando abrigo nos outros, finalmente aprendi a morar em mim.

Aprendi a me amar.

— Lene Dantas