Dizem que o tempo tem o poder de curar... Valdir Enéas Mororó Junior

Dizem que o tempo tem o poder de curar todas as feridas, mas o que ninguém nos avisa é que a cura verdadeira não nasce do esquecimento, nem exige que apaguemos os caminhos que já percorremos. Se neste exato momento você se pega tentando arrancar alguém do peito à força, lutando contra a própria mente e se culpando por ainda carregar vivas as lembranças de um ontem, por favor, pare um pouco. Respire bem fundo. Sinta o ar preencher os seus pulmões e acalmar os seus pensamentos. A verdade mais pura e bonita é que a gente nunca esquece, de fato, um grande amor. E, se você quer mesmo saber, não há absolutamente nada de errado, de frágil ou de vergonhoso nisso. Amar é um ato de coragem, e guardar a memória desse afeto é apenas a prova da sua humanidade.
Um amor de verdade não passa pelas nossas vidas de forma superficial, como um rascunho desbotado que o vento pode levar; ele chega com a força de um autor inspirado e escreve um capítulo inteiro, definitivo e marcante, na nossa biografia. Ele deixa marcas profundas e luminosas na nossa história singular. É esse amor que, sutilmente, transforma o nosso gosto musical, nos apresentando a novas melodias e letras que passam a fazer parte de quem somos. É ele que molda a nossa forma de ver o mundo, expandindo nossos horizontes, e nos ensina lições de generosidade, entrega e cumplicidade que nenhuma outra pessoa no universo conseguiria ensinar. Tentar esquecer algo tão grandioso e visceral através do esforço e da imposição só faz com que a lembrança se torne um fardo ainda mais pesado e doloroso de carregar. O afeto não aceita ordens de despejo.
Precisamos compreender, com muita ternura, que superar é algo completamente diferente de esquecer. Superar não significa ter amnésia emocional; significa que a história, finalmente, perdeu a sua urgência sufocante. Significa que, depois de muito caminhar, você finalmente consegue olhar para trás, revisitar as memórias do que foi vivido e lembrar de cada sorriso, de cada abraço e de tudo o que foi bonito e genuíno, sem que o peito sangre de dor ou de saudade. Significa ser capaz de reconhecer o que machucou, os desencontros e os momentos difíceis, mas escolher, conscientemente, não guardar nenhum rancor, nenhuma mágoa ou amargura. O amor verdadeiro nunca some no vazio; ele é energia pura e apenas muda de lugar dentro de nós. Ele sai do centro agitado da sua vida, deixa de ser o protagonista dos seus dias e vai repousar delicadamente em uma gaveta calma, serena e protegida, bem no fundo do coração.
Por isso, acolha-se e seja profundamente gentil, paciente e amoroso com o seu próprio processo de cura. O encerramento de um ciclo ou o fim de uma história jamais terá o poder de anular ou diminuir a beleza, a intensidade e a verdade de tudo aquilo que foi alegremente vivido. A última página de um capítulo não define, de forma alguma, o final do seu livro inteiro. O seu coração não ficou menor, mais vazio ou empobrecido por causa da ausência física de alguém; muito pelo contrário, ele se expandiu, agigantou-se e tornou-se ainda mais nobre porque aprendeu a amar de verdade, conhecendo a profundidade do próprio sentimento. O passado que vocês construíram fica guardado com eterno carinho e gratidão nessa gaveta iluminada da memória, mas o seu futuro continua imenso, radiante e cheio de promessas, com muitas e muitas páginas em branco, inteiramente novas, esperando pelo toque da sua canção e prontas para acolher os novos amores, os novos sorrisos e as lindas surpresas que a vida ainda vai lhe dar.