O Que Dois Passageiros Me Revelaram... Peregrino Nino Carneiro

O Que Dois Passageiros Me Revelaram Sobre o Brasil
Hoje foi, sem dúvida, um dia muito especial para o motorista de aplicativo Peregrino Nino Carneiro. Uma daquelas manhãs em que uma simples corrida se transforma numa história que merece ser contada.
Eram precisamente 6h30 quando recebeu uma chamada para buscar um passageiro no bairro Santa Felícia, na região noroeste de São Carlos, a 2,5 quilômetros de distância. O destino seria o Jardim Tangará, na Zona Leste da cidade.
Ao chegar, percebeu que eram dois homens. Depois dos cumprimentos, observou o nome registrado no aplicativo e perguntou:
— Pelo seu nome, Alejandro Arocha, imagino que não seja brasileiro. Qual é a sua nacionalidade?
— Sou cubano — respondeu o passageiro.
— De Havana?
— Não. Sou de Santiago de Cuba, uma cidade no sudeste da ilha, próxima à Sierra Maestra, uma das regiões montanhosas mais importantes do país.
— Deve ser uma cidade muito bonita! E o seu companheiro, como se chama?
— Andrés Martínez — respondeu o segundo passageiro.
— Também é cubano?
— Não, sou venezuelano, de Maracay, uma cidade próxima às montanhas e às belas praias de Choroní e Cata, a cerca de 120 quilômetros de Caracas.
O motorista, que sempre encontrou nas conversas com seus passageiros uma oportunidade de conhecer o mundo, ficou entusiasmado.
— Mas como dois homens de países diferentes acabaram se conhecendo aqui em São Carlos?
Alejandro sorriu:
— Por coincidência! Conheci Andrés num posto de combustíveis onde costumo tomar café e comer pão de queijo. Percebi pelo sotaque que ele não era brasileiro. Começamos a conversar e descobrimos que morávamos na mesma rua, no Santa Felícia!
A curiosidade do Peregrino aumentava a cada quilômetro.
— Posso fazer algumas perguntas? Escrevo uma coluna literária chamada *Diário de um Motorista*, na qual registro histórias de passageiros. Acredito que vocês tenham muito a contar.
— ¡Desde luego! — respondeu Alejandro.
— Não entendi! — confessou o motorista, sorrindo.
— Claro que sim!

— Então, Alejandro, o que o trouxe ao Brasil?
O cubano respirou fundo antes de responder:
— Sou dentista, filho de dentistas. Meus pais também exercem a profissão. Em Cuba, eu ganhava o equivalente a cerca de setenta reais por mês. Meus pais recebiam praticamente a mesma coisa. Era muito difícil sobreviver. Minha mãe ainda cozinha num fogão a carvão, porque, onde mora, a energia elétrica é extremamente irregular.
Fez uma pequena pausa e continuou:
— Com o pouco dinheiro que consegui juntar, viajei até o Suriname. Depois, atravessei o Rio Oiapoque numa pequena embarcação e segui por caminhos difíceis até Macapá. Foram muitas horas de viagem, medo e incerteza. Quando chegamos, procuramos a Polícia Federal para solicitar refúgio e regularizar nossa situação. Fomos bem acolhidos. Depois vim para São Carlos, onde já viviam outros cubanos.
O motorista ouviu atentamente. Conhecia, pela própria experiência, a dor de deixar a terra natal, mas percebia que cada imigrante carregava motivos e dificuldades diferentes.
— E você, Andrés? O que o trouxe ao Brasil?
O venezuelano respondeu com a voz carregada de emoção:
— Minha história também é muito triste. Perdi meus pais depois de um conflito envolvendo a casa que nossa família possuía na praia de Choroní. Meu pai era engenheiro da PDVSA, a companhia petrolífera venezuelana. Ganhava bem e sonhava em passar a velhice naquela casa, ao lado da minha mãe. Mas a situação do nosso país foi piorando durante os governos de Chávez e Maduro. Nossos sonhos acabaram destruídos.
Por alguns instantes, o silêncio tomou conta do carro.
— Eu sou engenheiro mecânico — continuou Andrés. — Moro no Brasil há cinco anos e sou profundamente grato pela acolhida que recebi.
A corrida aproximava-se do destino, mas o Peregrino ainda tinha uma última pergunta:
— Que conselho vocês dariam aos trabalhadores brasileiros?
Alejandro respondeu:
— Costumo perguntar aos meus colegas: vocês conseguiriam fazer o caminho inverso ao que fiz, deixando o Brasil para tentar sobreviver em Cuba? Pensem nisso!
Andrés completou:
— Valorizem a liberdade, o trabalho e as oportunidades. Lutem por uma vida melhor enquanto podem. Um país precisa cuidar do seu povo, não apenas prometer que vai cuidar.
Aquelas palavras fizeram o motorista refletir. Afinal, quantas vezes deixamos de valorizar aquilo que temos até conhecermos a realidade de quem perdeu quase tudo?
Ao chegar ao destino, antes de se despedir, o Peregrino disse:

— Meus amigos, também sou imigrante. Saí de Portugal e cheguei ao Brasil em 1977. Sei o que significa deixar a família, os amigos e as nossas raízes. Mas aprendi que a coragem não está apenas em partir. Está, sobretudo, em recomeçar.
Agradeceu aos dois pelas histórias e desejou-lhes felicidade na nova terra.
Enquanto seguia para a próxima corrida, uma reflexão não lhe saía do pensamento:
*Há pessoas que atravessam fronteiras em busca de uma vida melhor. Outras, mesmo vivendo em liberdade, ainda não perceberam o verdadeiro valor de poder escolher o próprio caminho.*
Naquela manhã, o motorista havia percorrido poucos quilômetros pelas ruas de São Carlos. Mas, pelas palavras de dois passageiros, viajara até Cuba e Venezuela, conhecendo histórias de sofrimento, coragem e esperança.
E confirmou, mais uma vez, uma das suas maiores convicções: *não precisamos percorrer o mundo inteiro para conhecer suas histórias. Às vezes, basta abrir a porta do carro e saber ouvir.*
*Peregrino Nino Carneiro*