Pai, se não quiseres afastar de mim... Alessandro Teodoro

Pai, se não quiseres afastar de mim este Cálice, poupe-me ao menos dos amantes da Espetacularização.
Não temo os Tropeços, as Tempestades ou a Morte — nem minha, nem dos meus —, pois nenhum desses Barulhos consegue ser mais ensurdecedor do que o Espetáculo feito deles.
Há dores que nos atravessam em silêncio, desastres que nos desorganizam por dentro e perdas diante das quais até a alma parece desaprender a linguagem.
São momentos em que a existência, despida de qualquer ornamento, nos obriga a encarar a nossa pequenez.
E, ainda assim, há quem não consiga olhar para a dor alheia sem transformá-la em palco, quem não saiba testemunhar uma tragédia sem reivindicar para si algum papel na narrativa, quem confunda a proximidade com o direito de assistir, a curiosidade com o cuidado e a exposição com a solidariedade.
É desses que peço para ser poupado.
Não porque me falte coragem para enfrentar os dias sombrios, mas porque há uma crueldade muito particular em ter de suportar a própria dor enquanto se administra o apetite dos outros por ela.
Como se o sofrimento, além de doer, precisasse ser explicado, exibido, compartilhado em doses convenientes e acompanhado de uma legenda que o tornasse compreensível aos olhos de quem jamais precisou habitá-lo.
Há quem não se satisfaça só com a notícia de um diagnóstico, de uma queda: precisa do impacto.
Não lhe basta saber que alguém atravessa uma tempestade: deseja ver os destroços, contar os trovões, medir os estragos e, se possível, recolher alguma vantagem moral da chuva que não o molhou.
Há quem se aproxime não para amparar, mas para assistir de perto; não para oferecer abrigo, mas para garantir um bom lugar na plateia.
E talvez uma das maiores misérias do nosso tempo seja esta: aprendemos a consumir até aquilo que deveria nos silenciar.
A dor virou conteúdo.
O luto, acontecimento público.
A intimidade, uma espécie de patrimônio coletivo, como se o sofrimento de alguém, uma vez percebido, deixasse de lhe pertencer.
Já não basta sofrer; é preciso sofrer diante de testemunhas.
Já não basta sobreviver; parece necessário produzir evidências da sobrevivência.
E, quando alguém escolhe recolher os próprios cacos longe dos olhos alheios, logo aparece quem interprete o silêncio como mistério, a discrição como arrogância ou a ausência de explicações como uma dívida não paga.
Mas nem toda dor pede tradução.
Nem toda Ferida Aberta deseja ser compreendida.
Algumas só precisam de tempo, resguardo e da presença discreta de quem sabe que amar também é não invadir.
Pai, se não puderes afastar de mim os Cálices amargos da existência, concede-me, ao menos, a graça de não precisar bebê-los diante da Curiosidade da multidão.
Que eu não tenha de justificar minhas lágrimas, defender meus silêncios ou transformar minhas cicatrizes em argumentos para convencer os outros de que realmente doeu.
Que eu possa cair sem me tornar assunto, levantar sem precisar anunciar a vitória e chorar sem que alguém procure, no meu rosto encharcado, uma história digna de ser contada.
Porque existe uma diferença imensa entre quem presencia a nossa ruína e quem permanece conosco enquanto tentamos nos reconstruir.
O primeiro, muitas vezes, quer saber o que aconteceu.
O segundo pergunta de que precisamos.
O primeiro procura detalhes; o segundo oferece os ombros.
O primeiro se lembra do espetáculo; o segundo se dispõe a ajudar a remover os escombros quando as câmeras se desligam e a curiosidade encontra outra tragédia para devorar.
É nos últimos que reconheço alguma coisa de sagrada.
Talvez a verdadeira compaixão seja uma forma de reverência.
Uma maneira de reconhecer que há territórios da alma nos quais não se entra sem convite, que existem sofrimentos diante dos quais a palavra mais sábia é aquela que não se pronuncia, e que nem toda presença precisa deixar vestígios para ser verdadeira.
Há abraços que salvam justamente porque não exigem explicações.
Há amizades que se revelam não pelo que dizem quando estamos no chão, mas pelo que se recusam a dizer sobre nós quando nos ausentamos.
Há amores que não precisam conhecer todos os detalhes da ferida para compreender que não devem tocá-la.
E há uma beleza quase divina em quem sabe guardar o que lhe foi confiado.
Não temo os Tropeços porque sei que o chão também ensina.
Não temo as Tempestades porque aprendi que nem todo céu escuro anuncia o fim.
Não temo a Morte porque compreendo que a finitude não é uma ofensa à vida, mas parte de sua condição.
Temo, isto sim, a vulgarização de tudo aquilo que merece respeito; a incapacidade de olhar para a fragilidade humana sem convertê-la em entretenimento; a pobreza de espírito de quem precisa que o outro sangre para sentir que tem algo a dizer.
Não é a tragédia que me assusta.
É a plateia.
É perceber que, por vezes, o ser humano se comove mais com a possibilidade de assistir a uma desgraça do que com a responsabilidade de impedir que alguém sofra sozinho.
É descobrir que existem olhos que brilham diante da queda alheia e bocas que se enchem de palavras piedosas, enquanto o coração, secretamente, agradece por não ser o protagonista daquele infortúnio.
Por isso, Pai, se houver alguma misericórdia reservada aos que caminham sob o peso da condição humana, que ela se manifeste também na escolha das companhias.
Afasta de mim os que precisam da minha dor para alimentar suas conversas, os que confundem intimidade com acesso irrestrito e os que só reconhecem a gravidade de uma ferida quando ela pode ser exposta à luz dos outros.
Aproxima-me daqueles que sabem chegar devagar, sentar-se ao lado e permanecer.
Daqueles que não transformam a minha vulnerabilidade em moeda, a minha confiança em informação ou a minha desventura em oportunidade de parecerem bons.
Que eu tenha a lucidez de distinguir quem segura a minha mão de quem apenas deseja tocar no acontecimento.
E que jamais me falte dignidade para proteger aquilo que, mesmo em meio à dor, continua sendo meu: o direito de sofrer sem plateia, de recomeçar sem anúncio e de existir sem precisar converter a própria vida em espetáculo.
Porque nem tudo o que acontece precisa ser visto.
Nem tudo o que dói precisa ser contado.
Nem tudo o que perdemos precisa ser explicado.
Algumas coisas pertencem somente a Deus, à memória e ao silêncio.
E talvez a paz comece justamente quando compreendemos que não devemos ao mundo uma apresentação pública de cada batalha que travamos.
A vida não é um palco, a dor não é um convite e a nossa intimidade não é o preço que precisamos pagar para receber alguma compreensão.
No fim, não peço uma existência sem cálices amargos.
Peço apenas que, quando eles chegarem, eu ainda possa escolher em que silêncio bebê-los, em quais braços repousar e a quem confiar os fragmentos de mim.
Que me sejam dados dias serenos, sim, mas, sobretudo, pessoas que não façam da minha serenidade uma exigência nem da minha dor um acontecimento.
E, se a tempestade vier, que venha.
Se o chão faltar, que eu encontre forças para continuar.
E se a morte rondar a mim ou aos meus, que eu tenha coragem suficiente para amar até onde a vida permitir.
Mas, Pai, por tudo o que há de humano e sagrado em nós, poupe-me dos que confundem testemunhar com participar, curiosidade com afeto e exposição com amor.
Porque há dores que o tempo cura, perdas que a vida ensina a carregar e tempestades que, cedo ou tarde, passam.
Mas há violências que começam justamente quando alguém, incapaz de respeitar o nosso sofrimento, decide transformá-lo em Espetáculo.
E dessas, Pai, se não puderes me poupar, concede-me ao menos a sabedoria de fechar as cortinas, apagar as luzes e continuar vivendo — longe dos aplausos, fora do alcance dos olhares famintos, em paz com aquilo que não preciso provar a ninguém.
Que eu nunca tenha de fazer da minha dor uma cena para o mundo acreditar na minha humanidade.
Amém!
