Bebelle perdeu a coroa, e com ela se... Northon Salomão de Oliveira
Bebelle perdeu a coroa, e com ela se dissipou a corte de aduladores que confundia reverência com afeto e conveniência com lealdade. O silêncio ocupou o lugar dos aplausos, revelando, sob o verniz das aparências, a velha hipocrisia das relações humanas. Mas havia, também, uma via de mão dupla: talvez Bebelle tenha acreditado demais no poder que exercia e compreendido tarde demais a fragilidade dos laços que o sustentavam.
Foi infeliz. E a vida, indiferente aos títulos que os homens inventam para si mesmos, não lhe concedeu privilégios diante da morte, do tempo ou da doença. Essas forças antigas não reconhecem majestades, não se curvam diante de coroas, nem poupam aqueles que um dia pareceram intocáveis.
Assim, pouco a pouco, a vida a despojou de tudo aquilo que parecia torná-la grande. O palácio deixou de lhe pertencer, os súditos desapareceram, e a solidão, paciente e inevitável, ocupou os espaços antes preenchidos por vozes e reverências.
Agora, Bebelle está quietinha.
Talvez, no silêncio em que repousa, exista a última lição de uma existência que conheceu os privilégios do poder, mas não conseguiu preservar o calor dos vínculos humanos. Porque há uma diferença abissal entre ser cercado por pessoas que se curvam à nossa importância e ser amado por aquelas que permaneceriam quando já não tivéssemos importância alguma.
No fim, a vida retira os adornos, dispersa a corte e fecha as portas do palácio. E o que resta de uma rainha não é a coroa que perdeu, mas a humanidade que talvez nunca tenha conseguido encontrar.
