O direito de estar Há quem carregue nos... Flavia Rohdt
O direito de estar
Há quem carregue nos ombros
o peso de muitas gerações,
quem aprendeu, ainda criança,
que os sonhos também têm preço
e que nem todas as portas
se abrem para todas as pessoas.
Há quem estude depois do trabalho,
quem divida o tempo entre livros e ausências,
quem atravesse cidades,
madrugadas,
incertezas,
levando na mochila
mais do que cadernos:
a esperança de uma vida diferente.
Há quem seja o primeiro da família
a atravessar os portões de uma universidade,
a ocupar uma cadeira
onde antes só lhe permitiam imaginar-se.
E há tantas histórias interrompidas,
tantas inteligências desconhecidas,
tantos sonhos que não chegaram
por falta de condições,
nunca por falta de capacidade.
É por isso que, quando eu vejo alguém
Vindo de baixo e insistindo em estudar
Eu não consigo enxergar apenas um estudante.
Eu vejo alguém rompendo com uma realidade
Que, durante toda a vida, ensinou
Que aquele lugar não era para ele! *
Mas não quero chamar de superação
aquilo que também é injustiça.
Não quero transformar a fome em coragem,
a privação em virtude,
o sofrimento em requisito
para merecer um lugar no mundo.
Porque estudar deveria ser um direito,
não uma batalha pela sobrevivência.
E permanecer deveria ser tão possível
quanto chegar.
Penso nas mãos que trabalharam a terra,
nas mulheres que sustentaram famílias,
nos pais que não conheceram a universidade,
mas reconheceram nos filhos
a possibilidade de outros caminhos.
Penso em quem chega
e ainda precisa aprender
a não pedir desculpas por estar ali,
a não esconder o sotaque,
a origem,
a história,
a maneira de existir.
Porque o conhecimento
não nasce apenas entre paredes acadêmicas.
Também mora nos quintais,
nas roças,
nas cozinhas,
nas conversas de família,
nas experiências de quem aprendeu
a ler o mundo
antes de poder ler os livros.
E quando alguém vindo de baixo
ocupa um espaço historicamente negado,
não é apenas uma vida que se movimenta.
É uma história coletiva
que encontra outras possibilidades
de ser contada.
Que ninguém precise abandonar suas raízes
para ser reconhecido.
Que nenhum diploma apague as mãos
que ajudaram a construí-lo.
Que a universidade aprenda, também,
com aqueles que chegam trazendo
outros saberes,
outras memórias,
outras maneiras de compreender a vida.
Porque ninguém deveria precisar
provar que merece estar onde tem direito.
E que um dia
vir de baixo
seja apenas uma referência
ao lugar de onde se partiu,
e nunca mais
ao lugar onde a sociedade
espera que alguém permaneça.
Nota da autora: A quarta estrofe deste poema contém uma citação direta adaptada do manifesto sobre estudantes da periferia, de autoria do professor Pedro Costa (@_motivaquecresce).
