Quando a Saudade me abraça um... Alessandro Teodoro

Quando a Saudade me abraça um pouquinho mais apertado, o que me consola é a Gratidão pelo Azar de ter tido tanta Sorte.
Porque há encontros que, mesmo quando a vida os transforma em despedidas, continuam acontecendo dentro da gente.
Há pessoas que partem, momentos que não voltam, abraços que se tornam lembranças e sorrisos que, de tão vivos na memória, quase nos convencem de que o tempo ainda não passou.
E talvez seja esse o paradoxo mais bonito e mais doloroso de existir: descobrir que algumas das coisas que mais nos fazem falta são justamente aquelas que mais nos fizeram felizes.
A Saudade, no fundo, é uma espécie de Eternidade disfarçada de Ausência.
Ela nos lembra que o tempo pode levar a presença de quem amamos, mas não pode desfazer o que foi verdadeiramente vivido.
O que passou não deixou de existir; apenas mudou de lugar.
Saiu do alcance das nossas mãos e encontrou morada naquilo que somos.
Está nos nossos gestos, nas nossas escolhas, nas palavras que repetimos sem perceber e até na maneira como olhamos para o mundo após termos conhecido alguém que nos ensinou a enxergá-lo de outra forma.
E é aí que nasce a Gratidão pelo Azar de ter tido tanta Sorte.
Azar, porque a vida não nos permite conservar tudo aquilo que amamos.
Porque a morte, essa arquiteta imprevisível e implacável dos nossos destinos, não nos consulta antes de mudar os cenários, encerrar capítulos ou transformar presenças em lembranças.
Azar, porque, às vezes, precisamos aprender a continuar vivendo com um espaço vazio onde antes existia alguém.
Porque amar também é aceitar a vulnerabilidade de não ter garantias, de não possuir o amanhã e de não poder negociar com o tempo.
Mas Sorte…
Ah, quanta Sorte!?!
Sorte por ter cruzado caminhos que poderiam jamais ter se encontrado.
Por ter vivido histórias que não estavam escritas em lugar algum.
Por ter conhecido pessoas que fizeram o mundo parecer maior, a vida parecer mais leve e os dias comuns ganharem a importância das coisas extraordinárias.
Sorte por ter tido motivos para rir até perder o fôlego, por ter encontrado abrigo em um abraço, por ter experimentado aquela sensação rara de estar exatamente onde se deveria estar, ao lado de quem fazia aquele instante valer a pena.
Talvez a maturidade comece quando deixamos de perguntar apenas por que certas coisas precisaram acabar e passamos a agradecer porque, um dia, elas começaram.
Quando compreendemos que a finitude não anula o valor de uma experiência, assim como o pôr do sol não torna menos belo o dia que termina.
Há coisas que não precisam durar para sempre para terem sido eternas naquilo que despertaram em nós.
Não se trata de romantizar a perda, nem de fingir que a ausência não dói.
Há dias que a Saudade pesa um pouquinho mais, os silêncios apertam e as lembranças chegam metendo os pés na porta.
Há momentos em que a razão entende, mas o coração continua procurando.
E tudo bem.
Nem toda dor precisa ser vencida; algumas precisam apenas ser acolhidas até que aprendamos a carregá-las sem deixar que nos impeçam de caminhar.
Porque existe uma diferença imensa entre sofrer por aquilo que perdemos e reconhecer a riqueza daquilo que tivemos.
A primeira nos prende ao que já não podemos mudar; a segunda nos reconcilia com a beleza de termos vivido.
E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nessa travessia: permitir que a Saudade nos visite sem esquecer que a Gratidão também mora em nós.
No fim das contas, a vida não nos promete permanências.
Oferece encontros, possibilidades, instantes e a liberdade — nem sempre fácil — de atribuir significado ao que nos acontece.
Não escolhemos as despedidas, não controlamos todas as mudanças e não conseguimos proteger para sempre aquilo que amamos.
Mas podemos escolher não transformar o fim em uma negação do começo.
Podemos olhar para trás sem desejar apagar a história só porque ela terminou.
E, quando a Saudade me abraça um pouquinho mais apertado, tento me lembrar de que nem toda ausência é sinal de fracasso, nem todo fim é uma injustiça e nem toda lágrima precisa significar arrependimento.
Às vezes, chorar é apenas o coração reconhecendo o tamanho da bênção que foi ter vivido aquilo que agora lhe faz tanta falta.
Por isso, se existe algum consolo em não poder voltar, talvez ele esteja em saber que eu estive lá.
Que vivi.
Que amei.
Que fui feliz sem saber, em alguns daqueles instantes, o quanto eles se tornariam preciosos.
Que a vida, mesmo sem me garantir a eternidade de certas presenças, me concedeu o privilégio de conhecê-las.
E, se hoje a Saudade dói, é porque ontem a vida me presenteou.
Que eu nunca seja tão triste pelo que "perdi" a ponto de me tornar ingrato pelo que recebi.
Que eu nunca deseje tanto reviver o passado a ponto de deixar de honrar tudo o que ele construiu em mim.
E que, mesmo nos dias em que a ausência falar mais alto, eu consiga encontrar, no fundo da memória, uma razão serena para sorrir.
Afinal, há Azares que nos ferem, mas há Sortes que nos transformam para sempre.
E algumas pessoas, mesmo quando já não podem caminhar ao nosso lado, continuam sendo parte do melhor caminho que já percorremos.
Se a Saudade é o preço de ter vivido algo tão extraordinário, que eu tenha coragem de senti-la sem amaldiçoar a Sorte que me permitiu viver.
Porque, entre a Dor de não ter para sempre e a felicidade de ter tido um dia, escolho Agradecer.
Não porque a ausência seja pequena, mas porque o amor foi grande.
Não porque tenha deixado de doer, mas porque valeu a pena.
E, sobretudo, porque há lembranças que, mesmo quando apertam o peito, continuam aquecendo a alma.
Que Sorte a minha por ter tido tanto a perder!
Que Gratidão a minha por ter tido tanto para amar.
Gratidão pelo Azar de ter tido tanta Sorte!
