O ar expressionista transcende o algoz... Celso roberto nadilo
O ar expressionista transcende o algoz das telas congeladas no tempo,
pois o que sou diante da vítima de uma era de contradições?
O homem a poliu e a tornou cinza, sem vida — e se diz político.
Priva-se de honestidade pelo puro negacionismo,
a besta entre mares de solidão onde até a ratazana morreu de sede.
É a agonia de tantos mundos.
Vemos o emaranhado de ideias numa faceta que se dissolve em veneno no ar.
A distopia parece futurista demais,
mas a humanidade celebrou a própria ruína.
Ratos apodrecem a base de uma sociedade reerguida dos escombros
que ousou dizer que o mundo não precisa de florestas ou mares,
pois a tecnologia nos salvaria.
Contudo, o mundo navegante e pujante afundou na própria arrogância.
E, ainda assim, sobrevivemos.
As telas são testemunhas de um tempo em que a ignorância venceu.
Caminhamos pelas belas paisagens de mundos esquecidos.
Navegamos pelas estrelas dilaceradas enquanto a humanidade maltrata a biosfera;
toda colonização se eleva numa linguagem de troca:
espelhos e escovas em tributo aos deuses astronautas.
O velho pão e circo e o antigo cabresto se alinham ao chicote e à escravidão.
O fascismo faz vítimas num teor de discursos inertes,
transformando a ilusão da realidade em traços atrozes de luz opaca e desilusão.
Estátuas expõem a imponência de antigos ditadores;
suas criações são a dilaceração da sociedade em mantos terrenos,
onde buscamos compreender o vazio de nossas vidas.
O povo não deve temer o governo; o governo deve obedecer ao povo.
Num profundo espectro visual e fractal, na escuridão do abismo abstrato,
o poder da existência cognitiva se dá no vazio do universo.
Para termos a compreensão retrospectiva, olhamos o céu — azul ou cinza —,
mas observamos o trânsito enquanto a poluição dá contraste ao ar-condicionado.
A nostalgia no rádio é quebrada pelo horário obrigatório.
Somos o peixe assado na vitrine, enquanto ratos comem seus restos.
Chovem peixes num mundo seco e árido, onde somos servos da probabilidade
e o único propósito inerente é sobreviver às escolhas erradas —
à verdade que morreu diante da mentira.
Assim assistimos a mais uma passagem do tempo.
Bombas atômicas viram pedidos de eleição para que a paz e a liberdade sejam celebradas.
O adeus a todos os direitos foi o início da degradação cognitiva;
o tempo tornou-se testemunha da agressão ao mundo.
O desmatamento e a exploração ilegal de minérios são atribuídos a maus políticos,
no contraste das telas e escritos que desenham um presente que desdenha da natureza devastada.
A crítica se vê presa numa bolha de alienação,
ao mesmo tempo em que assistimos à falta de caráter moral e honestidade.
O fogo esmorece as florestas num estado irracional:
o mesmo carvão da churrasqueira foi, um dia, a casa dos animais.
— Celso Roberto Nadilo
