SPINOZA INVESTIGOU AS PAIXÕES. POPPER... Carloseduardobalcarse

SPINOZA INVESTIGOU AS PAIXÕES. POPPER QUESTIONOU AS CERTEZAS. FESTINGER EXPLICOU A RESISTÊNCIA À CONTRADIÇÃO. MAS POR QUE CONTINUAMOS ACREDITANDO NAQUILO QUE AS EVIDÊNCIAS JÁ DESMENTIRAM?

O ser humano não é manipulado apenas pelas informações que recebe. Também pode ser aprisionado pelas interpretações que se recusa a abandonar.

Baruch Spinoza investigou como os afetos influenciam a experiência humana e como sua compreensão pode contribuir para ampliar nossa capacidade de agir. Sua filosofia nos ajuda a perceber que sentir intensamente não significa compreender adequadamente aquilo que sentimos.

Karl Popper defendeu a crítica e a possibilidade de refutação como elementos fundamentais do conhecimento científico. Uma teoria não se torna verdadeira simplesmente porque encontramos argumentos favoráveis a ela.

Leon Festinger, ao desenvolver a teoria da dissonância cognitiva, demonstrou como contradições entre crenças, atitudes e comportamentos podem produzir desconforto psicológico e favorecer tentativas de justificação.

David Hume investigou os limites da razão, o papel dos hábitos e a influência das paixões sobre nossas ações. Sua filosofia questiona a confiança excessiva que depositamos na racionalidade de nossas próprias decisões.

Aaron Beck contribuiu para a compreensão dos pensamentos automáticos e das distorções cognitivas, mostrando como interpretações podem influenciar emoções e comportamentos sem representar adequadamente a realidade.

John Flavell, referência nos estudos da metacognição, investigou o conhecimento que desenvolvemos sobre nossos próprios processos cognitivos e a possibilidade de monitorá-los.

Jürgen Habermas examinou as condições da racionalidade comunicativa, a argumentação e a justificação de pretensões de validade no diálogo.

Essas contribuições pertencem a tradições diferentes, mas ajudam a compreender um problema comum: não basta possuir pensamentos, sentimentos ou argumentos. É necessário examinar os fundamentos que lhes conferem credibilidade.

É nesse campo que situo minhas seis pesquisas científicas.

No METADISCERN, examino o discernimento como uma operação de segunda ordem, voltada aos critérios pelos quais pensamentos e interpretações recebem autoridade funcional.

Na Pedagogia do Discernimento, investigo a formação de sujeitos capazes de questionar não apenas respostas, mas os fundamentos que justificam sua aceitação.

Na Alfabetização do Discernimento Consciente (EADC), essa capacidade é direcionada também ao enfrentamento das fake news, da desinformação, da manipulação e da aceitação irrefletida de conteúdos.

Na pesquisa sobre evocação e desautorização, examino a necessidade de reavaliar conhecimentos recuperados da memória, especialmente quando novas evidências comprometem sua validade.

No estudo sobre discernimento na regulação da relação entre emoção e ação, investigo a distinção entre intensidade emocional e autoridade funcional para orientar comportamentos.

No Método PROTAGONISTA, desenvolvo uma proposta centrada na consciência, na responsabilidade e na autoria das próprias escolhas.

Não se trata de afirmar que a metacognição, a revisão de crenças ou a autorregulação nasceram com essas pesquisas. Esses problemas possuem antecedentes filosóficos e científicos relevantes.

A especificidade de minha proposta está em investigar como um conteúdo mental adquire autoridade, como essa autoridade pode ser calibrada e em quais condições deve ser retirada.

Popper nos ajuda a compreender a importância de submeter afirmações à crítica. Festinger explica por que podemos resistir às contradições. Beck demonstra a relevância de examinar pensamentos automáticos. Flavell contribui para compreender o monitoramento da própria cognição.

Minha investigação acrescenta uma pergunta operacional: depois de reconhecer um pensamento, uma emoção, uma lembrança ou uma informação, quais critérios justificam permitir que esse conteúdo continue orientando nossas decisões?

Essa questão ultrapassa os limites da sala de aula.

Uma pessoa pode identificar uma notícia falsa e continuar compartilhando outras que confirmem suas convicções. Pode reconhecer um pensamento distorcido e permanecer subordinada a ele. Pode compreender intelectualmente uma injustiça e continuar reproduzindo os mecanismos que a sustentam.

Pode, inclusive, utilizar inteligência artificial para produzir argumentos sofisticados em defesa de conclusões que jamais examinou.

“O senso comum comumente mente.”

A quantidade de informações disponíveis não determina a qualidade do discernimento. A força de uma convicção não comprova sua verdade. E a intensidade de uma emoção não lhe concede autoridade automática sobre nossas escolhas.

O problema não está somente naquilo que pensamos. Está também naquilo que permitimos que nossos pensamentos façam conosco.

“A mente mente e o discernimento desmente.”

Porque pensar por si mesmo exige algo além de formular ideias: exige coragem intelectual para retirar a autoridade daquelas que já não merecem nossa confiança.

Carlos Eduardo Garcia Moreno Balcarse

Carlos Eduardo Balcarse

Psicanalista, Escritor e Pesquisador

19 de outubro de 2026