Hoje tudo parecia como nos outros dias:... Janaina da Cruz Fernando

Hoje tudo parecia como nos outros dias: noite mal dormida, o cansaço ainda presente, aquela vontade de continuar na cama até dizer chega. Mas havia algo diferente. Como em todos os outros dias, havia em mim ainda aquela esperança de tornar este dia especial. Não olhei para fora da janela, mesmo eu tendo-a abrido. O vazio da minha alma ainda é o mesmo de sempre. Perguntei-me mais uma vez: o que tenho de diferente?

O sono me perseguiu. Parecia que eu carregava nas costas o peso de minha cama. Tentei conversar com alguém, mas como sempre, não sabia o que dizer ou perguntar. Eu só não queria ficar exposta ao silêncio da minha tristeza. As coisas que eu falava pareciam brigas, discussões; as perguntas que eu fazia tinham peso de provocação. Queria poder dizer a quem me ouvia que eu não estava bem, que precisava de um abraço, de atenção. Mas essa coisa que se impregnou em mim nos últimos vinte anos da minha vida não permitiu.

Houve um tempo em que a escuridão parecia maior do que eu e me senti tão perdida que não conseguia ver nenhuma saída. Mas hoje sei que algo me segurou aqui — talvez houvesse ainda mais amor pela vida do que eu conseguia reconhecer em mim mesma. Acho que meu ouvinte desistiu de mim. Eu o entendo — eu também já desisti, desisti de tantas coisas. E por mais que eu ainda me arraste pelos cantos da minha vida, recolhendo os cacos de algo que outras pessoas deixaram quebrados, eu acredito que em algum momento vou conseguir recolher todos e colá-los. Sei que não vão ficar perfeitos, mas vai ser o suficiente pra me segurar por mais um tempo.

É tão difícil tentar ficar inteira. Mais complicado ainda é pegar pequenos fragmentos e uni-los. Sempre que tento juntar meus pedaços, eu caio e me quebro de novo. Sempre volto ao ponto de partida. É uma guerra que nunca tem fim. Então pergunto ao meu Criador: até quando vais tentar me manter aqui? Sinto que já não sirvo para nada. Estou tão cansada e sem direção. Não tenho a quem recorrer quando preciso de ajuda. E não tenho coragem de pedir que fiquem comigo, nem que seja só um pouquinho.

Talvez eu tenha agradecido ao meu Poder Superior. Talvez Ele tenha tido misericórdia de mim. Talvez eu ainda tenha algo importante a fazer por aqui. Seguir andando e lutando contra um amanhã que ainda não chegou parece já ter virado rotina. Quem já calçou um sapato apertado sabe exatamente como é incômodo, entende como doem os calos que ele causa. A pessoa até tenta calçar um chinelo, mas os calos continuam ali, doendo.

Seguir andando, procurando um motivo, um plano ou um sonho. Falando em sonho — que sonhos são esses que ainda tento me convencer de que podem se realizar? Às vezes acho que não faz sentido sonhar. Sonhos são para pessoas jovens, com vida. Há anos não consigo saber o que é viver, o que é ser jovem. Me sinto como alguém que passou tempo demais presa em uma cela e só saiu por já não representar mais perigo a ninguém. Não que eu fosse perigosa, mas entendo que já não sou um obstáculo, nem alguém que ainda pode disputar alguma coisa com os outros. Me acostumei a deixar tudo de lado. Não vejo que valha a pena provar algo. Sinto que minhas opiniões, minhas propostas não servem para ninguém — e até duvido se consigo ser algo bom para alguém.

Mas voltando ao ponto principal, eu aprendi a morrer e a ressuscitar todos os dias. Carrego o peso dos meus dias pela manhã, durante a tarde me convenço que serão apenas mais algumas poucas horas e quando chega a noite, preparo minhas forças, aquelas que usei durante todo o dia para me manter firme ao que realmente importa. Uso essa determinação para me manter de pé, e ali comemoro com quase alegria o findar de mais um dia em que apenas respirei. Dormir por algumas horas é encontrar um refúgio, e guardo a esperança de que ao acordar pela manhã, traga consigo uma vida nova, com algo que me arranque ao menos um suspiro, um motivo pra continuar e aguentar mais um pouco, sobrevivendo com o mínimo que a vida precisa pra existir.