A Estação que Habita em Mim Vivo como... Paulo A. Neves

A Estação que Habita em Mim


Vivo como um trem.


Não porque deseje partir,
mas porque a vida não conhece
o ofício de permanecer.


Os trilhos são o destino
que não consulta a vontade,
e cada apito é uma ordem silenciosa
que nem o coração consegue desobedecer.


Passei por muitas estações.


Em algumas,
deixei apenas o rumor das rodas,
como quem atravessa a chuva
sem molhar a terra.


Em outras,
deixei pedaços inteiros de mim,
sem perceber
que um homem também pode ficar
onde apenas sua lembrança permaneceu.


Há pessoas para quem
a minha viagem terminou.


Foi numa plataforma qualquer,
dessas que o tempo cobre de poeira.
Elas acenaram.
Eu acenei.
O trem partiu.


E foi ali
que morri um pouco
na memória delas.


Talvez hoje contem minha história
como quem fala de um viajante
que passou depressa
e desapareceu na curva dos trilhos.


Mas há outras...


Outras ainda viajam comigo,
embora ocupem vagões invisíveis.
Não lhes ouço a voz,
não lhes vejo o rosto,
e, ainda assim,
há noites em que sinto
que respiram dentro das minhas lembranças.


Estranha é a distância:
afasta os corpos,
mas, às vezes,
aproxima a eternidade.


Existe, porém,
uma estação
que nunca consegui deixar.


Foi nela que ficou
aquilo que de mais verdadeiro havia em mim.


Desde então,
o trem continua seguindo,
os dias continuam passando,
as paisagens continuam mudando...


Mas eu...


Eu permaneço parado
naquele instante
em que vi uma porta fechar-se
e um olhar desaparecer
entre a fumaça da partida.


Descobri tarde
que o corpo viaja,
mas a alma escolhe
onde deseja morar.


A minha nunca embarcou novamente.


Se algum milagre houver
nos relógios do universo,
não lhe pedirei
que façam o trem andar para trás.


Pedirei apenas
que desenhem um desvio nos trilhos,
uma curva impossível,
um caminho que conduza,
não ao passado,
mas ao lugar onde o amor
esperou tempo demais.


Porque algumas estações
não pertencem aos mapas.


Existem apenas
dentro daqueles
que continuam viajando
com o coração
à espera de um retorno
que talvez nunca aconteça...


E, ainda assim,
é essa esperança
que mantém acesa
a luz da última janela
do último vagão
do trem que insiste
em chamar-se vida.