Você me falava da Nova Jerusalém, toda... Gilson Faria
Você me falava da Nova Jerusalém, toda banhada em ouro, com seus portões entreabertos e querubins vigiando suas muralhas dia e noite. Contava suas aventuras, sua caminhada quase perfeita, sua batalha incansável contra as forças do mal. Dizia que enfrentava espíritos malignos diariamente e, certa vez, me contou que havia chegado tão perto, a poucos metros da entrada principal.
Sei que não é fácil chegar tão perto. O máximo que consegui foi contemplá-la de longe. Para mim, foi uma experiência surreal: os portões resplandeciam de tal maneira que ofuscavam meus olhos. É um privilégio raro testemunhar algo tão grandioso.
Sabe, meu brother, outro dia tentei avançar. Reuni todas as minhas forças, fiz um esforço que parecia sobrenatural, mas precisei recuar. Um anjo me disse que eu ainda não estava preparado espiritualmente e que aquele não era o meu momento. Ainda assim, não me abandonou. Acompanhou-me no caminho de volta e, do alto do vale, mostrou-me os portões se fechando por alguns instantes.
Foi então que meus olhos contemplaram uma cena aterradora: milhares de demônios pareciam se reunir no Vale das Caveiras, cercando o único caminho que conduzia àquela cidade celestial.
Admiro sua coragem, meu amigo, mas temo que tenha sido imprudente. Por quinze longos anos, você entrou e saiu do vale da sombra da morte, tentando avançar em direção à Nova Jerusalém. Foram anos de batalhas, quedas, recomeços e uma busca incessante por algo que, para você, parecia estar sempre tão perto.
E hoje, ao recordar sua jornada, meu coração se entristece.
Minha alma sofreu ao ouvir aquele estrondo rompendo o silêncio da escuridão. Por um instante, pensei que você tivesse vencido mais uma batalha, abatido mais um demônio e finalmente alcançado seu objetivo. Mas logo a esperança deu lugar à dor, quando soube que você havia atravessado uma crise profunda e que sua mente já não encontrava descanso.
Você chegou tão perto, meu caro amigo. A poucos metros dos portões, por tantas e tantas vezes… E, ainda assim, quanta dor pode existir entre a esperança de chegar e o sofrimento de continuar caminhando!
Quando ouvi o som das trombetas, meu coração vibrou por você, guerreiro. Imaginei que sua longa batalha estivesse chegando ao fim. Minha alegria, porém, durou pouco, e a notícia que veio depois deixou em mim um silêncio impossível de traduzir em palavras.
Seu corpo finalmente descansou, mas ficaram as perguntas, as lembranças e a dor daqueles que acompanharam sua caminhada. Ficou também a lembrança de alguém que lutou por tantos anos, carregando batalhas que talvez poucos fossem capazes de compreender.
Hoje, já não quero medir sua jornada pelas distâncias que conseguiu percorrer, nem pelas portas que não chegou a atravessar. Quero lembrar que, por trás do guerreiro, existia um ser humano; por trás da coragem, havia fragilidade; e, por trás de cada batalha, havia uma alma que também precisava de descanso, acolhimento e paz.
Que Deus, em Sua infinita misericórdia, acolha sua história, console os que ficaram e conceda descanso a todos os que caminham por vales escuros sem saber quando a luz voltará a brilhar.
Que a última palavra não seja a da escuridão, mas a da misericórdia.
