Queria voar. Voar pra longe. Mas é... Wil Gonçalves
Queria voar. Voar pra longe. Mas é estranho, porque na gaiola que estou tem comida, água e ninho. Tudo o que faria de um passarinho feliz.
mas tem um tipo de solidão
que não nasce do longe,
mas do perto que esquece.
ela mora no ninho,
entre penas, palha e promessa,
e se alimenta do silêncio
quando o cuidado falha em pousar.
eu pio,
pio,
pio
com o bico cansado de chamar
um calor que já foi casa,
mas agora é só teto.
a mãe passarinha ainda vem.
traz no bico a minhoca,
traz no gesto o roteiro,
mas não vê o frio
que me enruga a asa por dentro.
e é estranho,
porque estou aqui,
em meio ao que devia ser abrigo,
mas tudo parece escorrer
pelas frestas do gesto,
pelas palavras ditas sem ver,
pelas ausências disfarçadas de rotina.
sou ave pequena,
com as penas molhadas de espera,
e o peito batendo contra o invisível
de um amor que não me vê chorar.
não há por quem pedir socorro
quando o outro se faz presente
só por fora.
por dentro,
fica o eco,
e ele me responde sempre com o vazio.
e eu sigo,
piando,
piando,
piando
na esperança de que um dia
alguém volte a escutar
essa dor que canta
dentro do ninho.
dentro de mim.
