Wil Gonçalves

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Lembrei de nós,
na cama conversando
confessei meus medos
te entreguei medulas.


Tive medo,
me encorajou.
Dei pra trás,
me avançou.


Saí de longe para acá estar,
pertinha de você.
Faço minha vida,
o meu lar.
Pensando em você.


Construo meus caminhos:
Caminho que tropeço.
Ergo novas muralhas.
Teu colo é o que peço.


Penso em ti a cada passo
Me passo e te passo.
Nos passos, eu transpasso
tudo o que há.


Pensemos nós, no final,
estamos onde deveríamos estar?


Onde chegamos? Pra onde vamos?


Você se lembra de onde veio?


Mergulhei em ti,
eu vi um oceano.
Ah, Djavan…
Eu não sei nadar.


Tive medo de afogar.
Em sussurros você diz:
Vem, meu bem, você não vai se afogar.


Não me afoguei.


Não eram águas profundas.
Não eram oceanos.
Não haviam marés,
tinhas pra mim outros planos.


Nessa poça estou de pé,
com água no pé,
meus olhos estão secos.


Você tinha razão,
não pude me afogar,
não pude mergulhar,
como vou viver?


Nessa profundidade
me afoguei.


Oceano raso.


Não eram águas profundas.
Não eram oceanos.
Não haviam marés,
tinhas pra mim outros planos.


Nessa poça estou de pé,
com água no pé,
meus olhos estão secos.


Você tinha razão,
não pude me afogar,
não pude mergulhar,
como vou viver?


Me afoguei em ti.

Inserida por wgonds

Queria voar. Voar pra longe. Mas é estranho, porque na gaiola que estou tem comida, água e ninho. Tudo o que faria de um passarinho feliz.


mas tem um tipo de solidão
que não nasce do longe,
mas do perto que esquece.


ela mora no ninho,
entre penas, palha e promessa,
e se alimenta do silêncio
quando o cuidado falha em pousar.


eu pio,
pio,
pio
com o bico cansado de chamar
um calor que já foi casa,
mas agora é só teto.


a mãe passarinha ainda vem.
traz no bico a minhoca,
traz no gesto o roteiro,
mas não vê o frio
que me enruga a asa por dentro.


e é estranho,
porque estou aqui,
em meio ao que devia ser abrigo,
mas tudo parece escorrer
pelas frestas do gesto,
pelas palavras ditas sem ver,
pelas ausências disfarçadas de rotina.


sou ave pequena,
com as penas molhadas de espera,
e o peito batendo contra o invisível
de um amor que não me vê chorar.


não há por quem pedir socorro
quando o outro se faz presente
só por fora.
por dentro,
fica o eco,
e ele me responde sempre com o vazio.


e eu sigo,
piando,
piando,
piando
na esperança de que um dia
alguém volte a escutar
essa dor que canta
dentro do ninho.
dentro de mim.

é UMA luta por dia.
E SE QUISER.


há dias em que viver
é um verbo empurrado pr’amanhã.


a gente acorda no ontem,
carregando restos que viraram peso,
pendurando no corpo memórias mal digeridas,
ressacas de um tempo que não soube parar.
corre no hoje,
com o coração batendo metas,
com a cabeça tropeçando nas horas,
com a alma tentando lembrar que ainda é manhã
mas já se cobrando como se fosse tarde.
e só entrega no depois –
no depois que nunca chega inteiro,
porque quando chega
já virou mais uma tarefa vencida,
mais um alívio breve,
mais um acúmulo na agenda da exaustão.
o corpo levanta,
mas a alma ainda dorme –
ou melhor,
a alma continua trabalhando
enquanto o corpo finge que descansa.


tudo exige,
cobra,
grita,
empilha tarefas como quem empilha pedras
nas cachoeiras ‘marasmas’.


não há pausa,
não há freio,
não há colo.
só uma esteira que gira
e gira
e gira,
até que vem a vertigem
e a gente esquece
de onde veio
e sequer sabe
pra onde vai.


a vida virou isso:
uma dialética sem síntese.
uma luta sem trégua.
uma demanda que gera outra,
e mais outra,
e mais outra…
até o infinito de um dia comum.


preciso acordar amanhã cedo.
[são 2h37 da madrugada]
e o sono se recusa a vir deitar comigo.


e mesmo o descanso
[quando vem]
chega culpado,
envergonhado,
pedindo licença
num lugar onde o silêncio é luxo
e o cansaço é fraqueza.


mas ainda assim,
às vezes,
há brechas.


um café que se toma mais lento,
uma rega nas plantinhas com amor,
um vento no rosto,
um canto de passarinho
que rompe o pedido de pressa.


nessas fissuras do tempo,
a gente lembra:
sentir cansaço também é estar vivo.
não dar conta também é verbo.
parar também é verbo.
existir não é produção.


e talvez a revolução
seja, primeiro,
descansar.


então,
amanhã,
lutarei apenas UMA luta,
E SE QUISER.