Como punhado de areia, neste lugar meu... Miguel Espinoso
Como punhado de areia, neste lugar meu eu se esvai.
Neste jardim, há singular essência que supre a ausência que havia em mim.
Neste coral, ouço um canto tão encantador que até meu espírito amargo se encantou.
Amei outro amor e, por essa razão, todo meu ser, em choro, sangrou.
Fui navegador de uma solene e triste pintura, sobre a qual um navegador, sem enxergar terra à vista, por um turvo azul navegou.
Mas ouvi um assobio e fiz dele farol, tão visível como um fio de lã vermelha.
Teu cortejo, tão sedutor, fez com que o efeito do canto daquela sereia se dissipasse; nesse momento, meu afeto queima por outro desejo.
Fecho meus olhos sob as estrelas e trago longo suspiro... Sinto o vento como amigo, amigo de velha data, companheiro de ressaca.
E a lua, tão distante, tornou-se íntima amante.
Todos os dias, ao entardecer, vou àquela árvore e como dos frutos dos seus ramos; vejo restaurada minha juventude, imaculada, como a verdade, generosa como a bondade, pura como a inocência.
Torno-me, neste banquete, um com aquela singular essência.
- Miguel Espinoso
