Gil - a delicadeza de voltar a ser... Lilia Raquel
Gil - a delicadeza de voltar a ser adolescente
Na minha adolescência, existia um lugar chamado Gil.
Era um muro, num trecho escuro, acima do mar. Um desses lugares que ganham vida própria na memória de um bairro porque, entre a escuridão da noite e o barulho das ondas, os casais de namorados se encontravam para namorar.
Eu nunca frequentei o Gil. Mas sabia da sua existência. Sabia que, por trás daquele muro, havia histórias de encontros, beijos escondidos e mãos que se procuravam longe dos olhos de quem pudesse interromper o encanto.
O tempo passou. A adolescência ficou para trás, como ficam tantas coisas que a gente imagina, mas nunca chega a viver.
Até hoje.
Hoje fui caminhar na praia com um amigo. Somos amigos há mais de quinze anos. Entre nós, sempre houve amizade, carinho e respeito. Uma história construída sem que nada além disso precisasse existir.
Mas há dias em que a vida nos surpreende sem fazer alarde.
Caminhamos de mãos dadas à beira-mar. E, em algum momento, entre o som das ondas e a quietude daquele encontro, nos beijamos no muro da escadaria que desce para o mar.
Foi quando me lembrei do Gil.
Contei a ele a história daquele lugar e disse que estava me sentindo uma adolescente.
E estava mesmo.
Não pela idade, que já não me permite enganar o calendário, mas pela leveza. Pela novidade de um gesto que, de tão simples, parecia extraordinário. Pelo frio na barriga, pela doçura dos beijos, pela mão que encontra outra mão sem precisar explicar muita coisa.
Foi um encontro gostoso. Leve. Como um abraço daqueles em que a gente não sente vontade de sair tão cedo.
Aliás, talvez essa seja a melhor maneira de explicar o que senti: vontade de morar naquele abraço.
Morar no aconchego, na delicadeza, no tempo que parecia ter desacelerado só para nos deixar ficar um pouco mais. Naquele lugar onde não era preciso pensar no depois, encontrar respostas ou dar nome às coisas.
Era só estar ali.
A possibilidade de viver um instante sem precisar transformá-lo em uma definição, sem exigir dele promessas ou explicações. Apenas sentir. Apenas desfrutar.
Pensei em quantas vezes a vida nos convence de que certas experiências pertencem a uma idade, a uma época, a uma versão de nós que já não existe. Como se, depois de tantos anos, não pudéssemos mais sentir o coração se alegrar com um beijo ou descobrir uma novidade nos braços de alguém que já conhecemos há tanto tempo.
Mas talvez a adolescência não seja apenas uma fase da vida. Talvez seja também essa capacidade de se surpreender, de sentir o inesperado e de descobrir que ainda há coisas bonitas esperando por nós.
E o Gil, que nunca fez parte das minhas aventuras adolescentes, acabou entrando na minha história de um jeito inesperado.
Hoje, não fui ao encontro de uma lembrança. Fui caminhar na praia com um amigo.
Mas voltei com a sensação de ter encontrado uma menina que ainda mora em mim.
Uma menina que, por algumas horas, caminhou de mãos dadas, beijou devagar, abraçou sem pressa e desejou morar ali.
Talvez a vida seja mesmo isso: a delicadeza de nos surpreender quando já não estamos esperando por nada extraordinário.
E, às vezes, tudo o que a gente precisa é de um mar, um muro, beijos doces e um abraço onde dê vontade de morar.
