A EMANCIPAÇÃO DA IMPUNIDADE (artigo)... Guga Melo
A EMANCIPAÇÃO DA IMPUNIDADE
(artigo)
por Marcio Melo
*Não estamos perdendo os bons costumes. Estamos perdendo o medo de dever.
O diagnóstico do seu tempo não é falta de educação. É sobra de licença.
Quando dissemos que "tudo é válido", que moral é gosto pessoal e ética é coisa de velho, nós não ficamos livres. Ficamos órfãos de referência.
Sem um céu acima, sem uma lei dentro, sem um crivo na frente, a consciência vira conveniência.
Faço se me convém. Minto se me serve. Descarte o outro se não me atrapalha.
É isso que você chamou com precisão cirúrgica de *emancipação da impunidade social.
1. A falsa liberdade.
A autonomia absoluta prometeu: você pode tudo.
Mas não entregou: você responde por tudo.
O homem moderno achou que ao derrubar o inferno medieval de fogo e fez bem, porque ele nunca existiu como pregaram
derrubava também a consequência.
Erro trágico.
Ele se livrou do espantalho e achou que se livrou da colheita.
2. O vazio que escapa do tribunal, mas não escapa de si.
No tribunal humano, o impune vence. Ele escapa. Ele ri.
No tribunal da existência, ele se apaga.
Quem vive descartando o outro, alimentando-se do destrutivo, do imediato, do sujo, não está construindo maldade. Está construindo vazio.
Ele esvazia a si mesmo de tudo que é compatível com a eternidade: amor, verdade, justiça, fidelidade.
Quando o tempo
esse cobrador pontual
vier buscar o corpo emprestado, ele vai abrir a porta por dentro e não vai achar ninguém lá.
A impunidade na terra termina em apagamento absoluto. Não porque Deus castiga, mas porque não sobrou matéria espiritual para continuar. O próprio sujeito se abortou.
3. A lei que roda sozinha.
Deus não precisa descer para punir. A engrenagem já foi feita.
Causa e efeito.
Planta e colheita.
Uma sociedade que normaliza o descarte da moral colapsa por dentro. Não por castigo divino, mas por lógica:
Vira desconfiança. Vira violência. Vira cada um trancado no seu bunker, chamando isso de liberdade, mas morrendo de solidão.
Você terminou o artigo com a pergunta certa e eu vou te devolver ela em forma de tese:
Como devolver o senso de responsabilidade a um mundo que não teme mais o inferno?
Resposta: mostrando que o verdadeiro juízo não é ser torturado para sempre. É deixar de existir para sempre.
Não é medo de fogo. É medo de ter vivido à toa. De ter sido um rascunho que o universo jogou fora.
O homem que acredita que nada deve, no final descobre que nada se tornou.
