Só percebi depois que a expressão... Allan Conceição

Só percebi depois que a expressão “você nunca vai ser nada” também pode ser uma sentença.


Você sabia que muita gente cresce ouvindo isso antes mesmo de aprender a se defender dessa frase?


Em casa. Na escola. Nos olhares que pesam mais que as palavras.


Por anos, parece profecia.


Até que você entende que, muitas vezes, era só o medo dos outros, disfarçado de verdade.


Porque ninguém que diz “você não vai chegar a lugar nenhum” está realmente falando sobre quem ouve.


Está falando sobre o próprio limite. Sobre a própria desistência. Projetada sobre alguém que ainda está tentando descobrir quem pode ser.


O problema é que, na infância, isso não parece projeção.


Parece verdade.


Cada “não vai dar certo” acaba sendo carregado como fato, quando era apenas opinião.


E talvez essa seja uma das coisas mais cruéis: por algum tempo, a você também acredita.


Até entender uma coisa simples:


quem nunca tentou ou quem tentou e desistiu não tem autoridade para prever o fim de quem ainda está tentando.


A vida não é sentença de tribunal alheio.


É construção silenciosa, dia após dia, longe daqueles que só sabiam apontar.


E, quando se olha para trás, já não existe o menino que “não seria nada”.


Existe alguém que sobreviveu a uma sentença que nunca teve autoridade para definir seu destino.


Porque destino imposto pela boca dos outros não é destino.


É só ruído.


E chega um momento em que é preciso parar de ouvir.