⁠Se o mundo não tivesse dado palco... Alessandro Teodoro

⁠Se o mundo não tivesse dado palco aos idiotas a pretexto de descobri-los, talvez não tivesse tantos inteligentes flertando com a estupidez.


Há uma estranha ingenuidade em acreditar que toda voz merece o mesmo tempo de microfone.


Em nome da liberdade, da curiosidade ou até da democracia, passamos a confundir visibilidade com relevância e audiência com razão.


Descobrimos o idiota, transformamo-lo em personagem, repetimos suas frases, compartilhamos seus absurdos — e, quando percebemos, aquilo que deveria servir de exemplo do que não pensar tornou-se referência para muitos sobre o que pensar.


O problema não é a existência da estupidez.


Ela sempre esteve entre nós.


O problema começa quando a estupidez percebe que pode ser aplaudida.


E talvez seja ainda mais preocupante quando pessoas inteligentes, não por falta de inteligência, mas por excesso de vaidade, começam a flertar com o absurdo.


Primeiro, aproximam-se por curiosidade.


Depois, por ironia.


Em seguida, por conveniência.


Até que, de tanto brincar com determinadas ideias, já não sabem mais se estão rindo delas ou defendendo-as.


Vivemos numa época em que provocar parece mais importante do que compreender, chocar parece mais valioso do que refletir e vencer uma discussão parece mais urgente do que descobrir a verdade.


Nesse ambiente medonho, a estupidez aprendeu a se vestir de coragem, a ignorância passou a se apresentar como autenticidade e a convicção substituiu o conhecimento.


Talvez precisemos reaprender uma coisa muito simples: nem todo absurdo merece nossa indignação, nem toda provocação merece resposta e, principalmente, nem toda voz merece palco.


Porque há ideias que desaparecem quando não encontram plateia.


E há inteligências que se perdem justamente quando começam a achar elegante flertar com a estupidez.