O Ocaso do Sacríficio Texto “Antes... Marcelo Hypolito Botelho
O Ocaso do Sacríficio
Texto
“Antes que as estrelas fossem contadas pelos homens, e quando os velhos deuses ainda sussurravam nos penhascos fustigados pelo mar do Norte, havia um pacto de sangue e ferro. O inverno havia invadido o peito daquele que tudo deu, e as lâminas de batalhas alheias clamavam por mais um sacrifício no altar da discórdia.
Mas nenhum guerreiro, por mais ferido que esteja, nasceu para sangrar eternamente pelas glórias ou ruínas de outrem. Nas crônicas dos antigos clãs, conta-se que há um momento em que o herói recolhe suas runas, vira as costas para o salão dos banquetes traídos e caminha em direção às névoas densas. Ali, onde os olhos profanos não ousam enxergar, ele ergue seu próprio castelo de pedras imortais, cercado pela magia dos iluminados.
Este é o relato do último voo. O instante em que os portões de ferro se fecharam para o mundo dos homens, e o espírito exilado encontrou, no silêncio do seu próprio cosmos, o seu eterno e soberano Valhala.
Poema
Inalcançável sou, pois já cerrei
as tristes portas deste mundo vão.
Por derradeiro e livre, ousei o voo
além do éden que em minha mente habita.
Intocável permaneço em meu trono,
pois meus sonhos acham-se blindados.
O portal se desvela aos iluminados,
que à luz divina a alma consagraram
e jamais desviam os olhos das estrelas.
Distante vou, exilado em mim mesmo,
nas profundezas do castelo erguido
no âmago do meu próprio firmamento.
Rompeu-se a tua antiga prerrogativa
de verter meu sangue em vil holocausto,
p'ra saudar as espadas que outrora
dilaceraram teu próprio coração.
Não mais resgatarei o teu alto preço,
nem permitirei que eu me extinga em trevas
por tão minguada e pálida porção de ti.
Não podes alcançar-me no meu ápice,
não podes tocar-me na minha glória,
já não guardas o poder de ferir-me.
Encontro-me em plagas mui distantes,
enclausurado neste eterno cosmos
que, em verdade e desde o princípio,
sempre foi o meu real paraíso.”
D'Ante
