POR QUE UMA EMOÇÃO MUITO FORTE PARECE... Carloseduardobalcarse

POR QUE UMA EMOÇÃO MUITO FORTE PARECE ESTAR SEMPRE CERTA?

Há momentos em que não apenas sentimos alguma coisa. Sentimos que aquilo que sentimos prova alguma coisa.

O medo parece provar que existe perigo. A raiva parece provar que houve injustiça. A culpa parece provar que somos culpados. A ansiedade parece anunciar que algo dará errado. A paixão parece confirmar que determinada escolha é correta.

Mas uma emoção pode ser absolutamente verdadeira como experiência e insuficiente como evidência.

Esse talvez seja um dos erros mais discretos do julgamento humano: confundir intensidade psicológica com autoridade para decidir.

Quanto mais intenso é um estado emocional, maior pode ser sua capacidade de ocupar nossa atenção. E aquilo que ocupa intensamente a atenção pode adquirir uma importância desproporcional no julgamento.

O problema não está em sentir.

Está em transformar automaticamente aquilo que sentimos em autorização para agir.

Entre emoção e ação existe um espaço que frequentemente atravessamos depressa demais. Nesse espaço deveria ocorrer uma pergunta: o que esta emoção está me informando e o que estou acrescentando à informação que ela realmente oferece?

O medo pode pedir investigação sem justificar fuga. A raiva pode sinalizar uma percepção de violação sem demonstrar que nossa interpretação está correta. A tristeza pode revelar perda sem definir o futuro. A ansiedade pode indicar incerteza sem possuir qualquer capacidade de prever acontecimentos.

Isso significa que regular uma emoção não é necessariamente diminuí-la. Podemos sentir intensamente e ainda assim recusar que sua intensidade determine, sozinha, a decisão seguinte.

Essa distinção está no centro daquilo que venho denominando autorização funcional e calibração discernitiva: reconhecer um conteúdo interno sem conceder automaticamente a ele o poder correspondente à força com que aparece.

Não precisamos negar o que sentimos para pensar.

Precisamos aprender a perguntar quanto do que sentimos merece decidir.

Porque sentir intensamente não é o mesmo que autorizar intensamente.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador