E agora, José? A sexta chegou, meu... Marco Antonio Ianoni
E agora, José?
A sexta chegou,
meu dinheiro acabou,
o advogado sumiu,
o juiz nem me viu,
você que tem nome,
que zomba dos outros,
não susta o protesto,
e agora, José?
Estou sem mulher,
estou sem recurso,
estou sem carinho,
já não posso comer,
pois não posso pagar,
fugir eu não posso,
a onça pegou,
o amigo não veio,
recurso não veio,
marmitex não veio,
não tenho farinha,
e tudo acabou,
e tudo sumiu,
e nada mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Essa meia palavra,
esse instante de febre,
minha gula e jejum,
minha prateleira vazia,
minha geladeira vazia,
sem grana emprestada,
pura incoerência,
o ódio me aflora!
Com a defesa na mão
quero abrir a porta,
mas trancaram a porta;
quero chegar ao juiz,
mas o juiz recusou;
quero ligar pra Brasília,
Brasília não atende.
José, e agora?
Se eu gritasse,
se eu ofendesse,
se eu recusasse
a defesa gratuita,
se eu pagasse,
se eu quisesse,
que o juiz morresse,
Mas ele não morre,
ele é duro, José!
Sozinho na vida
qual bicho-do-mato
com muita agonia,
sem moradia própria
para me abrigar,
sem amigos fiéis
que queiram ajudar,
que falta de sorte,
vou me mudar,José!
José, para onde?
(Nota: Paródia político-jurídica inspirada no poema "José" de Carlos Drummond de Andrade)
