As Canções que o Tempo Não Levou Nos... Peregrino Nino Carneiro
As Canções que o Tempo Não Levou
Nos anos 60 e 70, eu ainda era um miúdo, um menino, um puto, como queiram chamar. Vivia na pequenina Resende, às margens do rio Douro, em Portugal. Foi ali, entre as quintas dos meus pais, o cheiro da comida que minha mãe preparava e o pequeno rádio de pilhas que meu pai havia comprado, que nasceu uma das grandes paixões da minha vida: a música.
Eu sempre me oferecia para ajudar minha mãe a preparar o almoço dos lavradores. Mas havia uma segunda intenção: queria estar perto daquele rádio. Naquela época, eu gostava de ouvir o programa “Discos Pedidos”, em que as pessoas escreviam cartas para oferecer músicas a quem amavam. Não havia celulares, internet ou mensagens instantâneas. Havia apenas uma carta, uma música e a esperança de que, algum dia, aquela canção chegasse aos ouvidos de alguém especial.
Talvez tenha sido ali que aprendi que música não é apenas música. Ela carrega sentimentos. Uma canção pode guardar um amor, uma saudade, uma amizade ou um momento que o tempo jamais consegue apagar.
Vieram os discos, os cartuchos, as fitas cassete e, depois, tantas outras tecnologias. Sempre que sobrava algum dinheirinho, eu comprava uma fita. Eu também tentava escrever as letras das músicas enquanto elas tocavam no rádio. Muitas vezes errava, porque não existia a possibilidade de voltar a canção. Mas eu tentava novamente. Eu queria guardar as músicas não apenas nos ouvidos, mas também no coração.
Foi através das músicas e dos bailes que me apaixonei pela primeira vez. Mas essa é outra história, que um dia talvez eu conte.
No final dos anos 70, vim para o Brasil. Meu primeiro dinheiro do trabalho me deu o prazer de comprar um radinho de pilhas. Ele se tornou meu companheiro inseparável. Estava comigo pela manhã, durante o banho, e à noite, antes de dormir. Anos depois, já casado, comprei o famoso aparelho “três em um”: vitrola, rádio e fita cassete. Para mim, aquilo era quase um tesouro.
Hoje, tantos anos depois, continuo apaixonado por música. Enquanto escrevo estas palavras, escuto baixinho uma música romântica pelo YouTube. E percebo como a vida é curiosa: aquele menino que um dia esperava ansiosamente uma canção tocar no rádio agora pode escolher qualquer música em poucos segundos. Mas o sentimento continua exatamente o mesmo.
Nas minhas caminhadas, a música ganhou um significado ainda maior. Ela me acompanha pelas estradas, pelas montanhas e pelas trilhas. Algumas canções me fazem lembrar do passado; outras me ajudam a compreender o presente; e algumas parecem falar exatamente aquilo que eu precisava ouvir naquele momento.
Às vezes, tenho a impressão de que não sou eu quem escolhe a música. É ela que me encontra.
Quando caminho ouvindo uma canção, sinto que ela conversa comigo. Faz surgir lembranças, desperta sonhos, acalma minhas preocupações e, muitas vezes, enxuga lágrimas que ninguém vê. É como se cada melodia carregasse uma pequena mensagem especialmente preparada para aquele instante.
Depois de tantos quilômetros percorridos, descobri que a música e a caminhada têm algo em comum: ambas nos fazem seguir em frente. A caminhada movimenta os meus pés; a música movimenta a minha alma.
Hoje, quando coloco meus fones e começo a caminhar, sinto que não estou sozinho. Levo comigo as lembranças da infância, meus amores, minha família, meus sonhos e todas as pessoas que fizeram parte da minha história.
E talvez seja por isso que continuo gostando tanto de música.
Porque algumas músicas simplesmente tocam os nossos ouvidos.
Outras tocam a nossa história.
E existem aquelas que, de tão bonitas e especiais, parecem caminhar conosco para sempre.
Peregrino Nino Carneiro
