Peço desculpas por não ser exatamente... Valdir Enéas Mororó Junior
Peço desculpas por não ser exatamente quem você imaginava. A verdade é que as expectativas que criamos sobre os outros raramente combinam com a realidade de quem eles realmente são, e sinto muito se isso te causou alguma decepção. Saiba que nunca foi minha intenção te ferir, mas também não posso me ferir tentando ser um personagem que não sou. Desejo, de coração, que você encontre a paz com as coisas como elas são, e não como deveriam ser.Reconheço o seu desapontamento e sinto muito por não ter sido o espelho do que você projetou em mim. Mas viver tentando alcançar a aprovação de alguém é um fardo pesado demais para carregar. Minhas falhas são reais, mas meu caráter e minha busca por autenticidade também são. Te peço perdão pela quebra da expectativa, mas não posso me desculpar por escolher ser eu mesmo.Entendi que o amor e o respeito de verdade não exigem molduras, nem cobram que a gente se mutile para caber no espaço que o outro reservou para nós. Construir uma imagem idealizada é um risco de quem projeta, mas viver tentando sustentá-la seria o meu maior erro. Ninguém deveria ter que pedir licença para existir em sua forma mais honesta.Lamento que o meu processo de crescimento tenha desorganizado os seus planos, mas a minha verdade não é uma afronta a você; é apenas a minha única forma de caminhar. Que a gente possa aceitar que o fim das ilusões é, na verdade, o começo da maturidade. Sigo em paz com quem me tornei, esperando que você também encontre a sua própria paz.Por muito tempo, a gente tenta se moldar ao que o outro quer por medo do abandono, sem perceber que o pior abandono de todos é aquele que cometemos contra nós mesmos. Descobri que prefiro o desconforto de carregar a minha própria verdade à falsa segurança de vestir uma máscara que me sufoca. A desilusão, embora dolorosa, é um portal necessário; ela nos obriga a olhar para a pessoa real à nossa frente, despida das fantasias que inventamos no nosso próprio isolamento.Não há maldade em não caber no sonho de ninguém. O erro está em acreditar que temos o direito de reescrever a identidade do outro para que ela sirva ao nosso roteiro pessoal. Minhas falhas não invalidam a minha essência, assim como o seu desapontamento não anula o valor de quem eu decidi ser. Aprendi que decepcionar o mundo para me manter inteiro não é egoísmo, é sobrevivência. Durante muito tempo, silenciei os meus próprios passos para que o barulho da minha presença não incomodasse o seu ideal de perfeição. Mas o silêncio guardado por medo da rejeição acaba virando veneno por dentro. Compreendi que o amor que exige a minha extinção não é amor, é posse. Deixar de pedir desculpas pelo espaço que ocupo no mundo foi o passo mais doloroso, porém mais sagrado, da minha jornada. É curioso como a nossa busca por liberdade costuma ser lida pelo outro como egoísmo ou traição. No entanto, a única traição real que existiu aqui foi o tempo em que fingi ser menor do que sou para que você não se sentisse desconfortável. Romper com essa farsa não é um ato de hostilidade contra você, mas um pacto de fidelidade comigo mesmo. Quem nos ama pela nossa metade nunca esteve pronto para nos receber por inteiro.Sei que o peso de ver uma ilusão desmoronar é imenso, e respeito o seu tempo de processar essa perda. A raiva que você sente agora talvez seja apenas a tristeza que ainda não encontrou o caminho das lágrimas. Não guardo mágoas do seu julgamento, porque sei que você não está conversando comigo, mas sim com o fantasma da pessoa que você gostaria que eu fosse. E contra fantasmas, eu não posso lutar.Que o tempo nos ensine a beleza de amar o que é real, e não o que é perfeito. Deixo ir a obrigação de consertar aquilo que a sua projeção quebrou. Que possamos, finalmente, caminhar sem o peso das promessas que nunca fizemos e com a leveza de sabermos exatamente quem somos.
