Às vezes a Internet tem a estranha... Alessandro Teodoro

Às vezes
a Internet tem a estranha mania de Valorar mais a Ousadia que o Talento.
Talvez porque vivamos numa época em que ser visto parece, muitas vezes, mais importante do que ser bom.
A exposição transformou-se em uma espécie de medida do valor, e a coragem de dizer qualquer coisa em voz alta passou a ser confundida com a coragem de pensar.
Quem se lança primeiro ao palco das opiniões frequentemente recebe mais atenção do que aquele que passou dias, quiçá anos, silenciosamente aperfeiçoando uma obra.
Mas há uma diferença fundamental entre aquilo que chama a atenção e aquilo que possui valor.
Kant nos lembraria — ainda que em outros termos — que o valor de uma ação não está simplesmente no efeito que ela produz sobre os outros, mas no princípio que a orienta.
Aplicado ao nosso tempo, isso deveria nos fazer desconfiar da lógica pela qual o aplauso se transforma em critério de verdade e a visibilidade em sinônimo de mérito.
A Internet é extraordinariamente eficiente em recompensar o que provoca reação.
O talento, porém, nem sempre provoca.
Às vezes ele exige silêncio, demora, estudo, disciplina e uma humildade intelectual quase incompatível com a velocidade das Vitrines Digitais.
O talento verdadeiro pode passar despercebido justamente porque não grita para ser percebido.
A ousadia tem seu valor.
Sem ela, muitas ideias jamais sairiam da seara do pensamento.
Mas ousar não é, por si só, criar; falar não é necessariamente pensar; provocar não é necessariamente argumentar.
Existe uma diferença entre a Liberdade de Expressão e a Liberdade Interior necessária para não dizer simplesmente aquilo que produzirá mais aplausos.
Talvez uma das principais tarefas do nosso tempo seja recuperar a capacidade de julgar por nós mesmos.
Não perguntar apenas: “Quantas pessoas estão gostando?”, mas: “Isto é bom?”
Não perguntar apenas: “Isso viralizou?”, mas: “Isso tem valor?”
Não perguntar apenas: “Quem está dizendo?”, mas: “O que está sendo dito — e por quê?”
Porque uma sociedade que terceiriza seu juízo aos algoritmos corre o risco de transformar a popularidade em uma nova forma de autoridade.
E talvez a verdadeira autonomia comece justamente quando deixamos de confundir aquilo que merece ser visto com aquilo que merece ser admirado.
Nem tudo que faz barulho tem profundidade.
E nem tudo que permanece em silêncio carece de grandeza.
Às vezes, o Talento não precisa de mais ousadia…
Precisa apenas de olhos capazes de reconhecê-lo.
