Eu Já Não Posso Mais Ficar Querido,... Priscila Oliveira Orphanides

Eu Já Não Posso Mais Ficar


Querido,
não estou partindo por desamor,
nem porque deixei de te amar.
Parto porque preciso salvar
a ausência de quem um dia fui,
a mulher que existia em mim
antes que o silêncio começasse
a ocupar o lugar das palavras.


Você mudou, querido.
E, nos teus olhos,
já não encontro o mesmo amor
que um dia me fazia ficar.


Talvez ainda exista carinho,
talvez ainda exista lembrança,
talvez nosso amor tenha apenas
se transformado em memória.


Mas ficar onde o amor permanece vivo,
enquanto as raízes se tornaram sufocantes,
é viver um luto
que nunca encontra o enterro.


Eu não quero destruir
o que fomos.
Ao contrário,
partindo, quero guardar
o que houve de mais bonito entre nós.


Nosso castelo de memórias
não precisa desmoronar
só porque eu preciso partir.
Ele permanecerá de pé
dentro de mim,
com as nossas risadas,
os nossos abraços,
os sonhos que um dia construímos
e tudo aquilo que, apesar do fim,
foi verdadeiro.


Desculpa, querido,
mas eu já não posso ficar
em um lugar onde não estou mais florescendo.


Não quero continuar
apenas por medo da partida.
Não quero me perder
tentando permanecer.


Às vezes, amar também é saber ir embora.


E talvez esta seja
a parte mais dolorosa do amor:
olhar para alguém que ainda amamos
e compreender que,
para continuarmos existindo,
precisamos seguir caminhos diferentes.


Eu parto levando comigo
a certeza de que você fez parte
da minha história.


E, onde quer que eu esteja,
nosso castelo de memórias
continuará guardado.


Porque algumas histórias terminam,
mas nunca deixam de ter existido.


Eu só preciso partir.


Porque eu já não posso mais ficar.