A Caneta, o Corpo e o Andar Dizem que,... Raimundo Grossi

A Caneta, o Corpo e o Andar

Dizem que, quando a pessoa se aposenta, a caneta começa a falhar. Não quebra de uma vez, não. Primeiro falha o traço, depois a tinta rareia, até que um dia a caneta já não escreve mais ordens, assinaturas, decisões. E, curiosamente, quando a caneta para, some também a gaveta onde ela ficava guardada. Tudo perde lugar.
A aposentadoria, se não for cuidada, é isso: um esvaziamento silencioso. Não do tempo , porque tempo sobra , mas do sentido. A pessoa deixa de ser chamada, deixa de ser consultada, deixa de ser necessária. A caneta seca.
Isso é importante para a cognição, pois, quando a caneta se perde, perdem-se também os sentidos da vida vivida. É quando, junto com ela, a pessoa perde o corpo. Disso entendo um pouquinho como médico ortopedista . Perde o andar. Perde o gesto simples de se manter bípede, de ir e vir, de ocupar espaço no mundo. O movimento é o primeiro idioma da vida. Antes de falar, a gente se move. Antes de escrever, a gente anda.
A Organização Mundial da Saúde alerta: quem se aposenta e se desliga do mundo vai morrendo aos poucos. Não é uma morte súbita, é um afastamento progressivo , do convívio, do corpo, da conversa. Uma aposentadoria mal vivida não termina no trabalho; começa ali.
Por isso, quando a caneta seca, o essencial é não sentar para sempre. É manter-se bípede e funcionante. É estar junto de quem ainda tem caneta , não para depender, mas para compartilhar. A proximidade com quem escreve mantém a cognição viva. A convivência mantém o corpo em movimento. O diálogo mantém a pessoa inteira.
Talvez a sabedoria esteja em aceitar que a caneta pode mudar de mão, mas nunca desaparecer. Que escrever ordens pode virar contar histórias. Que assinar papéis pode virar assinar presenças. E que, enquanto houver passo, palavra e encontro, ninguém está realmente aposentado da vida.