Epístola de Erasto aos Espíritas... MARCELO CAETANO MONTEIRO

Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses.

LIDA NO BANQUETE DE 19 DE SETEMBRO DE 1861.

...Sei que aquilo que vos digo aqui não ficará perdido; aliás estou me referindo inteiramente aos conselhos que já recebestes, e que ainda recebereis dos vossos excelentes guias espirituais que vos dirigirão nesta via salutar, pois é necessário que a luz vá do centro para a periferia e desta para o centro, a fim de que todos aproveitem e se beneficiem dos trabalhos de cada um. Aliás, é incontestável que submetendo ao CADINHO DA RAZÃO E DA LÓGICA TODOS OS DADOS E TODAS AS COMUNICAÇÕES DOS ESPÍRITOS(estamos seguindo, no meio Espírita, as orientações de Espíritos superiores como este?), fácil será repelir o absurdo e o erro. UM MÉDIUM PODE SER FASCINADO; um grupo, enganado, mas o controle severo dos outros grupos; a ciência adquirida e a grande autoridade moral dos chefes de grupos; as comunicações dos principais médiuns que recebem um cunho de lógica e de autenticidade de nossos melhores Espíritos, rapidamente farão justiça aos ditados mentirosos e astuciosos emanados de uma turba de Espíritos enganadores, imperfeitos ou maus(temos tido esses cuidados no meio Espírita?). REPELI-OS IMPIEDOSAMENTE, A TODOS ESSES ESPÍRITOS QUE DÃO CONSELHOS EXCLUSIVOS, pregando a divisão e o isolamento. Quase sempre são ESPÍRITOS VAIDOSOS E MEDÍOCRES, que tendem a IMPOR-SE AOS HOMENS FRACOS E CRÉDULOS, prodigalizando-lhes louvores exagerados, A FIM DE FASCINÁ-LOS E DE MANTÊ-LOS SOB SEU DOMÍNIO(não é isso que temos visto no Movimento Espírita?). Geralmente são Espíritos sedentos de poder, que, déspotas públicos ou no lar, quando vivos, ainda querem ter vítimas para tiranizar, após a sua morte. Meus amigos, em geral desconfiai das comunicações que tenham um caráter de misticismo ou de estranheza, ou que prescrevam cerimônias e atos bizarros. Nesses casos, há sempre um motivo legítimo de suspeita. Por outro lado, crede bem que quando uma verdade deve ser revelada à Humanidade, é, por assim dizer, instantaneamente COMUNICADA EM TODOS OS GRUPOS SÉRIOS, QUE POSSUEM MÉDIUNS SÉRIOS(o que temos visto no Movimento Espírita são os "Novidadeiros de Plantão" nos quais a infinita maioria ainda acredita, infelizmente)...

Revista Espírita 1861 - Outubro.


ERASTO E O CRITÉRIO DA RAZÃO COMO SALVAGUARDA DO ESPIRITISMO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O texto apresentado, oriundo da Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses e publicado na Revista Espírita de outubro de 1861, constitui um dos mais lúcidos e severos advertimentos já dirigidos ao movimento espírita nascente. Não se trata de uma exortação devocional, mas de uma verdadeira diretriz metodológica, moral e intelectual, fundada no princípio que sempre sustentou a edificação doutrinária séria: o império da razão esclarecida sobre o entusiasmo cego.
Desde as primeiras linhas, Erasto reafirma um princípio capital do Espiritismo autêntico: a circulação da luz entre centro e periferia, numa dinâmica de reciprocidade, jamais de monopólio. Tal afirmação dissolve qualquer pretensão de exclusivismo doutrinário ou de centralização personalista do saber espiritual. A verdade, quando legítima, não se encerra em grupos isolados nem se submete à autoridade de indivíduos, mas se manifesta de modo convergente nos núcleos sérios, disciplinados e moralmente responsáveis.
O ponto axial da epístola reside na expressão contundente “cadinho da razão e da lógica”. Aqui se revela o cerne do método espírita clássico: toda comunicação espiritual deve ser submetida ao crivo da análise racional, da coerência lógica e da consonância moral. Não basta a origem espiritual alegada. A procedência real se demonstra pelo conteúdo, pela elevação ética e pela harmonia com os princípios universais já consolidados. Esse critério, longe de empobrecer a experiência mediúnica, preserva-a da degradação mística e da superstição.
Erasto distingue com precisão os riscos inerentes à prática mediúnica. Um médium pode ser fascinado. Um grupo pode ser enganado. Essa constatação não diminui o Espiritismo, mas o torna intelectualmente honesto. A salvaguarda, segundo o texto, está no controle recíproco entre os grupos, na autoridade moral de dirigentes éticos e na convergência das comunicações oriundas de médiuns sérios, reconhecíveis não por títulos, mas pela sobriedade, pela lógica e pela ausência de vaidade.
A advertência contra Espíritos que oferecem conselhos exclusivos é de uma atualidade quase desconcertante. Erasto descreve com clareza psicológica o mecanismo da fascinação: elogios exagerados, promessas de missões singulares, isolamento do grupo ou do médium, desprezo pelos demais, e a lenta submissão da razão ao orgulho espiritual. Tais Espíritos, vaidosos e medíocres, buscam dominar os homens fracos e crédulos, reproduzindo no além as mesmas pulsões de poder que cultivaram na existência corporal.
O texto também rejeita com firmeza qualquer tendência ao misticismo estranho, às cerimônias bizarras e às prescrições ritualísticas sem fundamento racional. Sempre que o Espiritismo se afasta da simplicidade moral e da clareza intelectual, aproxima-se perigosamente da mistificação. A Doutrina, em sua origem, jamais se apresentou como um sistema de ritos, mas como uma filosofia moral de consequências éticas profundas.
Por fim, a afirmação de que uma verdade destinada à Humanidade é comunicada simultaneamente aos grupos sérios encerra uma das chaves mais importantes do controle universal do ensino dos Espíritos. Novidades isoladas, revelações exclusivas e supostas mensagens revolucionárias que não encontram eco nos demais centros responsáveis devem ser recebidas com prudência severa, quando não com franca rejeição.
Esta epístola não é apenas um documento histórico. É um espelho moral oferecido a cada geração espírita. Ignorá-la é reincidir nos mesmos erros que ela se esforçou por prevenir. Compreendê-la é reafirmar que o Espiritismo, para permanecer fiel à sua vocação, deve caminhar sempre com a razão desperta, a humildade vigilante e a ética acima de qualquer pretensa revelação extraordinária, pois somente assim a verdade atravessa os séculos sem se corromper.