O silêncio mata Não porque seja... Marco A Moreira Cardoso...
O silêncio mata
Não porque seja barulhento.
Não porque seja violento à primeira vista.
Mas porque é limpo demais para incomodar quem prefere se sentir correto.
O silêncio é o álibi dos que sabem.
É o abrigo moral de quem entende exatamente o que está acontecendo, mas escolhe não tocar no assunto.
Não por dúvida.
Por conveniência.
A sociedade não falha por falta de discurso.
Ela falha por excesso de encenação.
Defende valores em público e os abandona no primeiro instante em que eles exigem atitude.
Todo mundo reconhece a injustiça quando ela acontece com os outros.
O problema começa quando reconhecê-la exige posicionamento.
Quando exige perda.
Quando exige coragem.
É nesse momento que o silêncio aparece travestido de maturidade, de equilíbrio, de bom senso.
Mas não é nada disso.
É medo.
É cálculo.
É autopreservação.
O silêncio não é ausência de opinião.
É a decisão consciente de não agir.
É a escolha de proteger a própria imagem enquanto alguém suporta o peso inteiro da violência.
Quem se cala não está fora do problema.
Está dentro dele.
Sustentando.
Normalizando.
Permitindo.
Nenhuma estrutura injusta sobrevive apenas pela força de quem oprime.
Ela sobrevive porque encontra terreno fértil em quem observa e não interfere.
Em quem percebe, mas não confronta.
Em quem prefere não se comprometer.
A verdade desconfortável é esta:
muita gente não se cala porque não sabe o que fazer.
Cala porque sabe exatamente o que deveria fazer
e decide não fazer.
O silêncio é a forma mais educada de traição moral.
Não deixa marcas visíveis.
Não compromete discursos.
Mas cobra um preço alto de quem sofre e um preço invisível de quem se omite.
Uma sociedade que se orgulha do próprio silêncio não é pacífica.
É treinada para evitar responsabilidade.
E todo mundo que lê isso sabe, no fundo,
em que momento escolheu calar.
Em que situação desviou o olhar.
Em que instante preferiu não se envolver.
Não é acusação.
É espelho.
Porque quando o silêncio é confortável demais,
é sinal de que alguém está pagando o custo no lugar de quem se cala.
E isso, cedo ou tarde, exige reflexão.
