O tempo não passa: ele atravessa. Rasga... Domingos Massa

O tempo não passa:
ele atravessa.
Rasga a alma em silêncios sucessivos,
leva nomes, vozes, gestos mínimos
que sustentavam os dias.

Há perdas que não gritam,
apenas permanecem.
Assentam-se no peito como pedra antiga,
ensinando o peso exato da ausência.

O tempo não pede licença.
Ele segue, mesmo quando o coração
preferiria ficar.
E nessa marcha desigual,
aprendemos a caminhar feridos,
não por escolha,
mas por necessidade.

Continuar não é esquecer.
É carregar com dignidade
aquilo que não volta.
É permitir que a dor exista
sem que ela nos governe.

Seguimos porque viver
não é negar as perdas,
é dar a elas um lugar —
não no centro,
mas na memória que fortalece.

E assim, mesmo dilacerados,
avançamos:
não intactos,
não ilesos,
mas humanos o suficiente
para transformar ausência
em permanência silenciosa
dentro de nós.

©2025 @domingosmassa