Nhe’ẽ da Terra Nhanderuvuçu, em sua... GabrieldeArruda

Nhe’ẽ da Terra

Nhanderuvuçu, em sua antiga sabedoria,
destruiu para que a vida pudesse nascer de novo.
Os povos originários sempre souberam:
uma árvore não é madeira,
é nhe’ẽ em pé,
palavra que respira no corpo da terra.

Mas os que se dizem donos
não ouvem o nhe’ẽ da terra.
Criam para destruir,
desmatam a mata e, sem perceber,
matam também o espírito.

Ñande Ru não está longe,
está no canto do colibri,
na língua que ainda canta
e mantém viva a memória da terra.

Os teko porã vieram primeiro,
não como donos,
mas como lembrança viva
de que a terra fala
muito antes de termos ouvido.

Mas os que se chamam proprietários
apropriam-se sem escutar.
Secam o rio que dá de beber,
matam o rio que pede existir
na sua sede de seguir.

Quem não escuta o nhe’ẽ da mata
caminha com corpo,
mas o espírito se perdeu no vento.

Sabem, no fundo da noite,
que destruir a mata
é silenciar o idioma do mundo.
E quando derrubarem até a última palavra,
não morrerá um corpo apenas,
mas um modo inteiro de ser na vida.

E se essa visão se apagar de vez,
o que restar do mundo
será somente casca.