A Pirâmide Fitness Acordei decidido:... Aerton Lopes
A Pirâmide Fitness
Acordei decidido: hoje vou pra academia. Simples, direto, honesto.
Pagar a mensalidade e ir, como qualquer cidadão de bem que quer apenas viver em paz com o próprio abdômen. Mas é aí que mora o engano — e eu diria até, a emboscada social do século XXI.
Descobri que academia não é exatamente um lugar. É um ecossistema.
Uma civilização paralela.
Uma economia emergente com PIB próprio.
Primeiro, alguém me informou — com a frieza de quem entrega um boletim médico — que sem whey protein “não cresce”. A frase veio com a serenidade de uma sentença. Logo em seguida, me avisaram que eu precisava de ovo. Muitos ovos. Uma quantidade de ovos que deixaria qualquer galinha nervosa.
Do ovo, fui conduzido naturalmente ao frango. O frango é o animal espiritual da : está onipresente, onipotente e oniproteico. A ave sagrada da vida fitness.
Mas a peregrinação não para por aí.
Descobri que existe a nutricionista, que dirá exatamente o que você já sabe: coma melhor. E o personal, cuja missão é lembrar você de respirar — aparentemente uma habilidade que perdemos ao colocar o pé na sala de musculação.
Depois vem o setor de acessórios:
A garrafinha motivacional que marca litros e expectativas.
O fone de ouvido que promete transformar sofrimento em trilha sonora épica.
Quando percebi, eu não estava apenas entrando na academia.
Eu estava sendo incorporado a uma pirâmide fitness, amparada por suplementos, embalagens metálicas e pessoas que dizem “boraaaa” às seis da manhã como se isso fosse legalmente permitido.
O topo da pirâmide?
Ninguém sabe.
Há quem diga que é um supino perfeito.
Há quem diga que é pagar tudo isso e ainda ter disposição pra ir.
Eu, sinceramente, só queria fazer três de doze.
Mas sigo subindo — cansado, porém digno — essa escada rolante que insiste em descer.
