Se você está lendo isso, saiba que... Valdir Enéas Mororó Junior

Se você está lendo isso, saiba que esta folha de papel não carrega rancor, apenas a honestidade crua de alguém que finalmente aprendeu a respirar com o peito aberto.
Dizem por aí que o tempo cura tudo. Mas a verdade é que o tempo não cura nada; ele apenas anestesia a carne para que a gente consiga caminhar sem mancar tanto. Foram anos de contagem silenciosa desde aquele dia triste, quando a vida nos empurrou para calçadas opostas. Não terminamos por falta de amor. Terminar porque a realidade aperta o estômago e exige escolhas difíceis é o tipo de dor que rasga a alma sem fazer alarde. Eu precisei voltar para a minha casa, você precisou continuar com a sua vida.
Os anos passaram e nós dois seguimos. Construímos outras rotinas, olhamos em frente e pagamos as contas no início do mês. Mas sei, com a convicção de quem conhece o seu silêncio, que sempre que eu chegava e olhava para o horizonte, minha mente viajava para o meu quarto e lembrava do seu corpo e do nosso calor, de um jeito que nenhum cobertor conseguiu repetir.
O nosso reencontro na feira livre, décadas depois, não teve os fogos de artifício que têm naquelas cenas de novela. Foi sutil, humilde, no meio do cheiro de um perfume de jasmins que você usava. Quando nossos olhares se cruzaram entre as barracas, os fios de prata no seu cabelo e as linhas de expressão no meu rosto desapareceram. Você viu as minhas mãos tremerem, e eu vi a sua lágrima abrir caminho pela maquiagem. Naquele banco de praça, sob a mangueira, nós não culpamos o passado. Falamos sobre nossas vidas, do tempo e das pequenas vitórias diárias. Ali, nosso amor provou que tinha amadurecido: virou uma certeza mansa.
A grande lição que fica, e que me dá forças para continuar caminhando agora, é que a nossa superação não está em esquecer, mas em ter a nobreza de deixar ir. Quando nos levantamos daquele banco porque os nossos deveres nos chamavam, e eu segurei o seu rosto para te dar aquele beijo demorado na testa, meu coração sangrou, mas transbordou de gratidão. Gratidão por saber que você existe, que está bem e que fomos reais.
Por isso, encare esta carta não como um lamento, mas como uma herança de força. Algumas almas gêmeas não nasceram para dividir o mesmo teto, as mesmas chaves ou o mesmo sobrenome. Nossa missão foi mais bonita: fomos a âncora invisível que manteve o outro humano durante toda a tempestade da vida. Siga de cabeça erguida, com orgulho da nossa história e com a certeza de que caminhamos em paralelo, iluminando o mundo um do outro, até o dia em que o tempo decida, finalmente, nos unir no infinito.