Há várias maneiras de alugar as... Alessandro Teodoro

Há várias maneiras de alugar as cabeças dos asseclas, mas nenhuma é tão fácil, perversa e sutil quanto usar o nome de Deus.
Os mais apaixonados engolem até o cálice do discurso de ódio laureado com o Santo nome d'Ele.
Porque a fé, quando sequestrada pela conveniência, deixa de ser ponte e vira trincheira.
O versículo arrancado do contexto passa a servir como munição; não ilumina consciências, apenas reforça ressentimentos já cultivados.
E assim se constrói uma devoção estranha: menos interessada no divino do que na validação das próprias crueldades.
Há quem use a religião como espelho moral, mas há também quem a transforme em escudo para não encarar a própria hipocrisia.
Em nome de Deus, perdoa-se a ganância dos aliados, relativiza-se a mentira conveniente e santifica-se a violência quando ela atende ao lado “certo”.
O pecado, então, deixa de ser aquilo que corrompe o caráter e passa a ser apenas aquilo que contraria a tribo.
Os mais perigosos já não são os que fraquejaram na fé, mas os que descobriram como explorá-la.
Sabem exatamente quais palavras despertam culpa, medo, orgulho e pertencimento.
Entendem que um povo emocionalmente dependente de certezas prefere um líder que grite versículos a alguém que proponha reflexão.
Pensar exige coragem; repetir slogans travestidos de mandamento exige apenas obediência cega.
E enquanto uns transformam púlpitos em palanques e escrituras em instrumentos de domesticação, muitos seguem acreditando que defendem Deus, quando na verdade apenas defendem os interesses de seus próprios ídolos: poder, vaidade, vingança e superioridade moral.
Talvez a blasfêmia mais silenciosa já não seja só duvidar da existência divina, mas usar o nome de Deus para justificar aquilo que há de menos divino no ser humano.
