“Camille Marie Monfort já não... Marcelo Caetano Monteiro

“Camille Marie Monfort já não caminhava. Flutuava lentamente pelos corredores psicológicos da própria ruína. O mundo ao redor parecia dissolver-se em névoas púrpuras, semelhantes a memórias intoxicadas por absinto e velhos sonhos enterrados sob o mármore das noites.”
Os lustres antigos tremiam diante de sua presença como estrelas moribundas. Cada piano distante soava como um funeral executado para sentimentos que ninguém teve coragem de confessar. E então vieram as lágrimas.
Não lágrimas humanas.
Eram lágrimas densas. Escuras. Quase siderais.
Desciam lentamente como se carregassem dentro delas séculos inteiros de abandono, amores necrosados e silêncios acumulados em cemitérios emocionais. Camille observava o próprio reflexo no espelho enquanto a realidade começava a deformar-se ao redor de sua mente fatigada. As paredes respiravam. As velas pareciam sussurrar antigos nomes esquecidos. O tempo tornava-se viscoso.
Ela compreendeu naquele instante que a tristeza profunda altera a percepção do universo.
Tudo ganha contornos espectrais.
Os corredores tornam-se infinitos. Os relógios passam a ferir. As vozes humanas soam ocas. Os afetos parecem organismos em decomposição escondidos sob perfumes caros e sorrisos artificiais.
Camille sentia demais.
E sentir demais é uma forma silenciosa de condenação.
Seu coração tornou-se semelhante a uma catedral submersa onde antigos cânticos ainda ecoavam sob águas escuras. Existia nela uma espécie de romantismo febril, psicodélico e metafísico. Como se a própria consciência estivesse lentamente dissolvendo-se entre memórias, fumaças azuladas e visões etéreas de um amor impossível.
“Talvez eu tenha nascido tarde demais para o mundo.” Sussurrava isso diante da janela enquanto a madrugada escorria semelhante a tinta negra pelos telhados da cidade.
Os homens modernos assustavam-na.
Sorriam rápido demais. Amavam superficialmente demais. Esqueciam rápido demais.
Camille não sabia existir dessa maneira.
Por isso carregava nos olhos aquele abismo lírico. Aquela beleza funerária. Aquela expressão de quem parecia ouvir músicas invisíveis vindas de algum salão abandonado entre a vida e a morte.
E quando a chuva caía sobre os vitrais antigos, ela fechava os olhos lentamente, permitindo que a melancolia a consumisse como um narcótico espiritual.
Porque certas almas não desejam ser salvas.
Desejam apenas alguém capaz de compreender a profundidade de suas sombras.”