Algoz Invisível O tempo não é amigo.... Izaias Afonso
Algoz Invisível
O tempo não é amigo.
É algoz disfarçado de continuidade.
Não caminha comigo — me arrasta, me despedaça, me consome em silêncio.
Se ele soubesse que o desafio, talvez hesitasse…
Mas não hesita.
O tempo não pensa, não sente, não negocia.
Ele apenas avança — indiferente, brutal, absoluto.
Eu não conto com ele. Eu o confronto.
Mas ainda assim ele me atravessa todos os dias como lâmina invisível.
Se eu quero algo, ele me responde com demora.
Se eu espero, ele me pune com pressa.
Se eu imploro, ele ri na forma do atraso.
Sou seu inimigo sem poder vencê-lo.
Ele é meu juiz sem ter sido eleito.
E ainda assim ouso perguntar:
Se eu pudesse dobrá-lo, seria liberdade ou tirania?
Se eu o dominasse, eu ainda seria humano — ou apenas outro tempo, frio e sem culpa?
Talvez o verdadeiro desespero não seja o tempo passar…
Mas perceber que nada nele precisa de nós para continuar.
Se as estações fossem justas, eu desconfiaria.
Se a primavera fosse perfeita, eu temeria seu veneno escondido.
Se o inverno tivesse piedade, eu chamaria isso de mentira.
Porque nada que é absoluto pode ser inocente.
Tempo, você não é idêntico.
Você é guerra constante contra tudo que insiste em existir.
E eu não me curvo — não porque sou forte,
Mas porque já estou sendo quebrado.
Izaias Afons
